
Cilaaadaaa!!!!!
Você sabe o que é uma cilada? Bem, segundo meu querido dicionário, a definição seria a seguinte:
1 lugar oculto onde se aguarda o inimigo ou a caça. 2. Emboscada, armadilha.
Mas para mim, cilada significa uma situação (além de um baita programa do Multishow) onde, por algum motivo qualquer, você tenha se metido e tenha de alguma forma se ferrado. Eu já tive muitas dessas. Muitas festas falidas em locais totalmente duvidosos, muitos “programas de índio” para o domingo a tarde, muitas idas à redenção em dia de briga punk.
Sabe aquelas vezes em que você está em casa, totalmente tranqüilo, e alguém vêm a sua casa e o convida para dar uma volta, e quando você pergunta sobre o lugar dessa volta, a pessoa só diz assim:
- Ah, não te preocupa, o lugar é garantido…
Com certeza vai ser uma grande cilada. Você provavelmente vai ficar na fila durante umas duas horas, vai tentar azarar algumas garotas e só vai levar toco, vai perceber que a maioria das garotas do lugar está acompanhada (por outras garotas) e que a maioria dos homens do lugar está acompanhado por homens (de olho em você).
Após todo o tempo em que você ficou parado na fila (e no qual provavelmente choveu, com a sua sorte), você vai chegar ao balcão, falar com a bela atendente e vai pedir uma entrada. Ela vai pedir sua carteira de identidade e você prontamente põe a mão no bolso e percebe que a esqueceu em casa. Então você volta triste, sem mulher, sem ingresso e muito puto da cara com o seu amigo que te convidou para esta cilada.
Ciladas são episódios na qual Murphy simplesmente decidiu prestar atenção em nós e, por conseguinte, decidiu avacalhar totalmente com as nossas vidas. Esses dias em que ele está do nosso lado são aqueles dias no qual tudo dá errado. São os dias nos quais você bate com o dedo mindinho na quina do armário, dá com a cabeça em alguma porta de guarda-roupas, deixa queimar o miojo (e quase a casa), descobre que a sua garota é lésbica, deixa cair o seu pente na privada, a tampa do creme dental dentro do ralo, descobre que sua garota não era lésbica, aceita ir passar um fim de semana com a família…
Pois bem, foi assim que começou uma grande cilada de fim de semana, na qual, por algum motivo qualquer, eu decidi que seria realmente interessante passar um fim de semana com meu pai e sua família. O cronograma seria: no sábado eu daria aula e à tarde iria para a casa dele, onde nós ficaríamos vendo TV, conversando, falando mal dos vizinhos e no domingo iríamos para um churrasco na casa de um amigo do meu pai.
Sábado eu acordei com muito bom humor. Já eram sete horas da manhã, eu tinha um compromisso às oito com uma mulher que queria ajuda com um site próprio, então rapidamente eu fui me arrumar para sair. O dia estava lindo, céu azul, minha coroa estava também de bom humor, abri a porta e meu cachorro veio me recepcionar abanando o rabo com aquela cara de idiota que ele tem. Eu pensei comigo mesmo: “Bah, mas que dia lindão esse, bem que eu queira ficar dormindo mais um pouco”. Quem me dera eu tivesse feito o que queria. Mas ao invés de voltar para a cama e dormir até ficar com dor de cabeça, eu saí de casa e fui pegar um ônibus para ir até o prédio da mulher.
Não houve nenhum problema no caminho, nenhum sem noção balançando moedinhas no busão, nenhum falso cegueta que tanta agarra os seios das garotas quando está “pedindo” grana, nenhum garoto doente dando pancada na minha perna.
Fui para a sala da mulher, fiz o que tinha que fazer por lá, então me dirigi até a sala onde dou aula, me preparar para o início da mesma. E lá estava meu progenitor a me aguardar (ele também dá aulas lá). Conversamos por alguns instantes planejando o dia e ele me disse que me pegaria de carro na parada do ônibus, já que a parada fica um pouco longe da casa onde mora. E eu então pensei “Ah, ótimo, pelo menos eu não vou ter que caminhar por 10 quadras para chagar lá. Moleza”.
A aula transcorreu tranqüila, e terminada ela eu me dirigi até a parada do ônibus para que eu chegasse o mais rápido possível onde meu pai mora. Então, eu fiquei lá esperando, e esperando, e esperando… e esperando…e…
Sei que eu fiquei lá plantado por mais de meia hora a espera do maldito ônibus, antes de ver qualquer sinal da maldita plaquinha que indicava a direção para onde ele ia. Subi então. E tão logo eu subi, subiu também aquele maldito enganador “cegueta”, que distribui alguns papeizinhos para as pessoas (que eu nunca li) e fica passando a mão nas mulheres desprevenidas.
Depois dos acontecimentos do dia, Carpe Diem. Eu já estava meio que acostumado com imprevistos e coincidências. Mas depois desse dia, eu fiquei sabendo que não existem coincidências, existe Murphy. Ferrando a nossa vida.
Pois bem, eu desci do ônibus e fiquei no aguardo de meu criador vir me buscar com sua característica Caravam cor ouro.
Após alguns minutos, eu então escuto o barulho do motorzão V8 da Caravam a dobrar a esquina e, tão logo o carro se aproximou, eu saltei para dentro (como no seriado Dukes of Hazzard) e falei pra por o pé no acelerador (tá, eu não falei isso, mas seria bem legal).
Os problemas começaram por aí.
Dados uns cinco minutos andando de carro, dava para se perceber que o carro parecia meio pesado, e já era a terceira vez que meu pai reclamava que o carro tava puxando para um lado. Foi então que chegamos à brilhante conclusão de que o Pneu estava furado.
Descemos do carro, somente para olhar o pneu dianteiro esquerdo arriado no chão, como um gordinho depois do rango. E foi então nesse momento que eu pai decidiu que já estava na hora de eu aprender a trocar um pneu de carro. Deu-me as ferramentas, o estepe, um tapinha nas costas, e se escorou no carro. Só faltou ele gargalhar malignamente.
Quase quinze minutos depois, sujo de graxa, machucado no dedão e muito envergonhado com a minha atuação (e com as piadas do meu pai), eu finalmente consegui colocar aquele maldito pneu no lugar onde deveria estar.
Então fomos à procura de um borracheiro para que ele arrumasse o pneu e o colocasse no lugar, já que o estepe também não estava em bom estado. Rodamos por mais uma meia hora pela cidade a procura de algum lugar aberto e por fim o encontramos. Uma borracharia bem comum. Sujeira por todo o lado, empregados sujos de graxa, calendários com mulheres em posições “sensuais” na parede e um tio gordinho que parece estar usando uma baby look, com aquela pança peluda e
nojenta.
Conversamos com o cara e acertamos um precinho camarada para ele remendar o nosso pneu (sabem aquela propaganda de canos e tal, que tem um macaquinho que fica em cima das pessoas que estão sendo engrupidas, pois é…). O cara foi lá fazer a sua mágica e, alguns minutos depois, veio com a má noticia de que a câmara do pneu estava toda furada e que não valia o concerto. E disse que se quiséssemos, ele podia nos vendar uma, já que tinha algumas ali sobrando.
Mesmo cheirando a fumaça, nós compramos a câmara, fizemos com que ele trocasse o pneu estepe pelo “novo”, e saímos do local com 20 pila a menos na carteira. E foi durante o trajeto de volta para casa que descobrimos por que estávamos certos sobre o cheiro de fumaça. O pneu furou. De novo.
Pelo menos dessa vez não fui eu que troquei, foi meu pai. E em cinco minutos, se isso, estávamos indo de volta a borracharia, atrás do gordinho sacana. Brabos, sem dinheiro no bolso, e ainda com um pneu furado, o obrigamos a nos dar um pneu novo e trocá-lo, com a ameaça de que se tivéssemos que voltar, ele não acharia de formal alguma agradável.
Fomos para casa então, e já era quase três horas da tarde. Eu não havia almoçado nada, estava varado de fome. Ranguei que nem um bóia fria e depois me deitei no sofá, pensando em como colocar a rede entre as duas arvores nos fundos da casa. E quando eu já estava quase com força de vontade o bastante para me levantar, meu pai vem e me diz que um vizinho está reformando a casa e nos deu algumas (mais de mil) telhas. Com o detalhe que nós dois teríamos que carregá-las da casa em reforma até a nossa (três casas de diferença). E mais uma vez, por forças maiores que eu, fui levado a fazer esforços totalmente indesejáveis.
Sei que no final do dia, eu parecia uma daquelas pessoas que saíram da fumaça do 11 de setembro. Com as mãos todas raladas, a roupa suja de poeira e coisas que eu preferi não tentar identificar. E com um humor totalmente ruim e ácido.
O domingo parecia, então, um dia feliz. Iríamos para um churrasco, só teríamos que arrumar uma decoração para uma festa infantil antes de ir para rangar. Coisa de duas, talvez três horas, no máximo.
Dormi que nem uma pedra. E no outro dia pela manhã, as sete já estava de pé mais uma vez. Carregamos o carro com todo o material necessário para a decoração do lugar e fomos tirar o carro do pátio.
Mas ele não ligava.
Nesse momento, eu já estava quase certo de que eu era alvo de algum tipo de pegadinha. Não podia ser sério. Muita coincidência.
O que ocorreu foi que o arranque do carro estragou. E só havia uma maneira de fazê-lo pegar. Empurrando.
Então fomos eu, meu pai e o enteado dele empurrar uma Caravam de mais de meia tonelada de puro ferro. E depois de alguns minutos de muito stress conseguimos por final fazer aquela piece of crap funcionar. E nos dirigimos então até o local do trabalho.
Era uma espécie de CTG (Centro de Tradições Gaúchas), um lugar enorme, onde tínhamos que montar a decoração, que consistia basicamente em por no lugar alguns desenhos nas paredes, alguns arcos de balões e outras frescurinhas que alguma garota exigiu que fossem feitos. Parecia moleza, mas mais uma vez eu estava enganado.
O que era para ser uma ou duas horas, acabou se transformando em um trabalho de quase seis horas de trabalho ininterrupto em um salão sem ar-condicionado, onde apenas alguns ventiladores estavam ligados (mas não pegavam onde eu estava). Onde tivemos que encher mais de dois mil balões de aniversário para montar a decoração e onde eu conheci a caseira do lugar, que parecia a irmã perdida do Jason e provavelmente teria me atacado se eu não estivesse acompanhado.
Trabalhamos arduamente para fazer aquele lugar ficar totalmente magnífico. Um trabalho que me deixou seriamente exausto, com fome, sujo (porque uma hora faltou luz, eu tive de encher os balcões com bombas manuais) e completamente certo de que eu era alvo de Loki.
Depois de toda esta senda, fomos finalmente para o tal churrasco. Comemos, comemos, bebemos, comemos, rimos um pouco, e eu dormi em uma confortável rede entre duas árvores.
No fim do dia, eu estava pior do que o Rocky Balboa depois de uma luta. Só queria ir para casa e dormir um pouco um merecido e aguardado sono depois de uma maratona de desventuras em série.
Agora passado um dia, eu agradeço por ter sobrevivido a tal experiência sem danos maiores (e sem nenhum tipo de seqüela). E agora eu sei que Murphy merece o devido respeito e que festas de criança e encontros de família são as piores ciladas que alguém pode se meter (além, claro, do famoso “visitar os pais da namorada”).

Como eu queria…