Desculpe-me por isso.

Deus é um cara gozador, adora brincadeira

Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro

Mas achou muito engraçado me botar cabreiro

Na barriga da miséria, eu nasci Brasileiro.

Eu sou do Rio de Janeiro.

Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica

Como é que pôs no mundo esta pobre coisica

Vou correr o mundo afora, dar uma canjica

Que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca

E aquele abraço pra quem fica

Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio

Pele e osso simplesmente, quase sem recheio

Mas se alguém me desafia e bota a mão no meio

Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio

Que eu já tô de saco cheio

Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia

Deus me deu muitas saudades e muita preguiça

Deus me deu pernas compridas e muita malícia

Pra correr atrás de bola e fugir da polícia

Um dia ainda sou notícia.

Morar no Brasilzão significa ter o melhor do ensino público do continente sul americano. Salas lotadas, sem ar-condicionado ou com ventiladores que ficam rangendo. É ser discriminado por outros alunos por você ter algum gosto ou estilo diferente. É ter que lutar contra a sedução de todas as outras formas de ganhar a vida, para continuar estudando.

Ser brasileiro é ter que lutar todos os dias para que você tenha algum lugar no mundo e não apenas mais um lugarzinho no meio da multidão. É assistir de manha a Ana Maria Braga, à tarde o Vale a Pena Ver de Novo, à noite Malhação e também o Zorra Total.

É não estar seguro nem para ir à padaria comprar um pão. É ter medo de sair sozinho à noite. É não andar com coisas valiosas para não dar na vista, é não comprar coisas ostentosas pelo mesmo motivo. É ter que, por praxe, já pensar em como não permitir que os ladrões entrem na sua casa e roubem as coisas pelo qual você tanto lutou.

Ser brasileiro é ter malemolência, malandragem, jogo de cintura…

Desculpe-me, mas eu realmente não suporto esse jeitinho brasileiro de fazer as coisas, essas maneira como nos tratamos, como nos consideramos. Não suporto toda essa malandragem, toda essa pose da mano-mau-do-rap-do-cacete-a-quatro. Simplesmente não suporto.

Parece que nosso povo foi tachado de malandro, por ter suingue, por ter certa malemolência, e o negócio descambou para outro lado. Agora nós não conseguimos fugir ao estereótipo de malandro. Aquele que ganha à vida fácil, sem fazer esforço, sempre dando um jeitinho de fazer as coisas funcionarem, e nem sempre da maneira correta. Aquele que zomba dos outros que estão na labuta todos os dias, desde cedo.

Eu realmente não suporto essa mentalidade de povão brasileiro, que o cara tem que ser O fodão, O malandro, O pegador… etc. Esse tipo de conceito para mim parece muito absurdo. São concepções nascidas de mentes pequenas, que não enxergam o quadro todo, e acham que por alguém ser certinho ele de alguma forma é o trouxa da história, aquele que serve para ser passado para trás sempre. Esse tipo de atitude e pensamento que fazem com que o Brasil ainda seja um país de terceiro mundo. Esse tipo de criação, de educação nos fez ser esse país. Um país de corruptos, de malandros, de emos.

Eu trabalho nove horas por dia, estudo mais quatro horas, de segunda a sexta, e ainda trabalho no sábado em outro lugar, escrevo para um blog (em breve virão mais), e ainda faço sites para internet.

Sou trouxa? Por trabalhar de forma correta? Por me matar todos os dias, para ter uma chance maior no mercado de trabalho? Ou sou trouxa por que eu não estou por aí à tarde inteira vadiando, ganhando uma grana fácil, tendo paitrocínio, ou porque eu não saio tanto a noite como alguns, ou porque eu não gasto tanto como outros? Eu sou trouxa? Será?

Eu não tenho como explicar o quanto eu me sinto revoltado por morar em um país de gado. Onde as pessoas são guiadas por pensamentos não próprios, mas formados a partir de outras pessoas, que por sua vez foram formadas por outras pessoas e assim por diante. Uma falange. Uma massa, não um indivíduo.

Pessoas que acham razoável não ter que lutar por um futuro melhor, que acham que o que eles já tem está bom. Ou que usam qualquer defeito ou problema social como empecilho para continuar na luta, como uma bengala onde devem se apoiar por terem falhado. Onde tem algo para depositar a culpa por não terem dado o seu melhor.

Eu queria ver esses malandros terem que sustentar uma família, com dois filhos, sem ter que recorrer ao jeitinho brasileiro de fazer as coisas, sem recorrer a qualquer tipo de ajuda. Sendo somente trabalhadores, que acordam as seis e que chegam a casa as onze. Aí sim, nós vemos quem é macho ou não, quem é homem e quem é moleque.

Dizer, parecer e ser, são coisas bem diferentes.

Veja bem, eu não tenho problemas com pessoas simples, longe disso. As pessoas que são simples mesmo, em geral tendem a ser as pessoas que mais tem algo a te ensinar sobre a vida, principalmente os mais velhos. O que me deixa irritado mesmo é como nós brasileiros somos abitolados, temos pouca visão do mundo e não pensamos a longo prazo. Isso sim me irrita.

No meu tempo de escola primária, meu colégio era um dos melhores da região, onde quase todo mundo do bairro estudava, onde todo mundo se conhecia. Hoje, o local virou um antro de marginalidade. Alguns jovens acham muito bonito ter atitudes revoltadas, beber por aí, se drogar e fazer o diabo a quatro com suas vidinhas medíocres, pensando que está se rebelando contra a sociedade. Outros ainda assumem a pose já citada de fodões, de donos do pedaço. Algo está muito errado com os valores atuais de nossa sociedade, muito errado mesmo, pois isso não deveria ser permitido de forma alguma.

Já me chamaram de muitas coisas. De mal-humorado, de ranzinza, de cínico, de mal-educado, de brega…

Mas me diga, é possível morar em um país em que por todo o lado você simplesmente vê coisas que vão completamente contra todos os seus ideais, e mesmo assim continuar com um sorrisão no rosto?

~ por Legião em Março 6, 2008.

Uma resposta to “Desculpe-me por isso.”

  1. Irmão, muito bom! Esse post detonou. Melhor que aquele outro das “Banalidades”. Acho que nem preciso dizer que concordo 100% com o que tu escreveste (fora a parte do colégio, aquele lugar sempre foi uma bosta…).
    E é um dos principais pelos quais eu faço Jornalismo. Pra mim, a mídia brasileira é uma das maiores culpadas pela situação da nossa sociedade, então, é por ali que as coisas devem mudar primeiro.
    Posso estar errado. E sei que não posso fazer nada sozinho. Mas eu vou tentar mesmo assim.

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