Soberba.

Ela corria e corria. Suas pernas doíam, seus olhos lacrimejavam e seus pulmões ardiam. O teatro agora não mais tinha ninguém. O espetáculo há muito havia terminado, e só haviam ficado ela e seu maquiador. Alex. Mas ele havia sumido de repente e ela só ouvira seu grito em meio às grandes cortinas do anfiteatro. E agora ela corria, e nem sabia por quê. Ouviu sons de passos calmos vindo em sua direção, e fugiu. Seminua, vestida apenas com um roupão rosa, esfarrapado.

Esparsamente ela ouvia ruídos atrás de si. Então parecia que alguém estava em seu encalço, mas ao olhar para trás, não havia ninguém. Seus pés descalços não faziam barulhos sobre o chapo acarpetado do teatro, e assim, ela esperava despistar quem quer que fosse. Correndo muito, até se esconder.

Não sabia realmente porque continuava a correr, não havia realmente visto nada, e provavelmente Alex teria gritado por algum motivo bobo. Como sempre. Mas o frio na espinha que ela sentiu com o grito foi o que a fez sair de seu local. Foi um pânico que tomou conta dela, algo sobrenatural.

Com seus pulmões prestes a explodir, e agora se sentindo um tanto idiota, ela parou por alguns instantes. Ofegava tanto, e tão alto, que até mesmo um surdo conseguiria ouvi-la. Fez uma nota mental de que deveria parar de fumar tanto e de que iria freqüentar a academia, ao menos duas vezes por semana. Escorou-se na parede que dava para os camarotes Vips e ali ficou alguns instantes, ponderando o que faria em seguida.

Notou que as luzes do lugar começaram a oscilar como se estivessem prestes a queimar, como as grandes luzes alógenas dos filmes de terror que sempre fazem isto anunciando um perigo inesperado. Já havia assistido Hellraiser vezes demais para não esboçar um sorriso.

Mas foi então que ela ouviu um som a principio baixo. Parecia metal sendo arrastado ou friccionado contra alguma superfície, seguido do som de passos. Como se alguém estivesse usando uma daquelas grandes botas de cowboy, mas sem as esporas.

Os passos eram calmos e vinham direto em sua direção. Ela ouvia nitidamente tudo, pois não havia mais nenhum som no local, a não ser esse. E agora seu coração estava prestes a sair pela boca. Instintivamente ela se pôs a procurar pela maçaneta da porta do camarote em meio à meia luz que aquela maldita lâmpada proporcionava.

Achou-a finalmente e lentamente a abriu. E fazendo esforço para que nenhum som fosse emitido enquanto fechava a porta, ela entrou.

Realmente esse era o tipo de lugar que ela gostava de freqüentar. Lugares assim sempre a fizeram sentir-se como uma rainha entre mortais. O camarote Vip, realmente era algo. Luxuoso. Grandioso. Fútil, talvez. Mas era o seu lugar, onde se encaixava. Agora estava em farrapos, suava por causa da corrida, sua maquiagem estava borrada e seu cabelo despenteado, mas sabia que alguns minutos de atenção fariam com que ela se tornasse o alvo dos olhares.

E foi so quando ouviu o barulho de alguma coisa sendo passada pela fresta da porta, que se lembrou de que estava sendo amedrontada por algo ou alguém do outro lado da porta.

Ela olhou para a luz oscilante que vinha do corredor e que passava pela fresta, e notou um envelope. Branco. Puro. Cautelosamente foi até porta, se agachou e o tomou em suas mãos.

Ela se perguntava o que era tudo aquilo, o que estava acontecendo, e o por que. Seria um fã seu algum lunático, como o que matara John Lennon? Ou seria só algum dos seguranças querendo vingança por ela ter feito o que fez com ele, e depois tê-lo descartado?

Ela então abriu o envelope e notou uma carta. Mas não conseguia ler nada do que estava escrito devido à escuridão que tomava o lugar. Começou então a procurar a luz, um abajur, algum tipo de coisa que lhe proporcionasse luz suficiente para que lesse a tal carta. E por fim mexendo nos bolsos, ela encontrou um isqueiro.

Não havia se dado conta de que estava ali, junto com a erva que havia comprado para mais tarde. Deixou a erva no lugar e começou a tentar acendê-lo.

Após alguns segundos de frustração, ela por fim conseguiu manter a chama acesa e proporcionando luz suficiente. Notou então que suas mãos estavam manchadas por algo vermelho, mas que não identificava. E foi então que ela ficou estarrecida. Sangue. Era isso. A carta fora escrita com sangue. E fora isso que manchara suas mãos.

Garota, se você pensa que eu vou te matar, você esta coberta de razão.

Porque eu vou mesmo. Eu vou tirar desse rosto toda a alegria, vou fazer com que você grite para mim. E vou por fim expor sua beleza para todas as pessoas, e elas vão finalmente saber do que você realmente é feita. Literalmente.

Você sempre foi uma vadia, ambiciosa e egoísta, e acima de tudo uma narcisista por natureza. Todos sabem dos boatos sobre o que você faz com seus empregados quando eles erram, sobre o que faz com a própria filha.

Voce sempre se achou uma rainha. Achou que com sua beleza ganharia o mundo e os corações de todos. É por isso que hoje eu vou tirar tudo isso de você. Antes que eu comece, você ja vai estar implorando para que eu acabe de uma vez por todas. Mas eu não farei isso. Você vai sentir cada centímetro de dor possível e vai ficar acordada o tempo todo. Pois este é o seu show.

É bom você aproveitar bastante para ler esta carta, porque em seguida, eu vou arrancar estes seus olhinhos azuis.

Alex? Como acha que eu consegui tinta?


O pânico mais uma vez tomou conta de seu corpo e, num ímpeto de desespero, ela foi até a sacada do camarote. Olhou para a cortina próxima. Cortina essa que descia até o chão. E então saltou. Por um breve momento ela sentiu que iria conseguir, mas então suas mãos ao invés de segurarem firme o pano, notaram o quanto ele era liso e sedoso, e então começaram a escorregar em direção ao chão.

Uma queda de 4,5 metros em direção aos assentos.

Enquanto caia ela lembrou-se que essa fora mais uma de uma sucessão de más idéias que tivera em sua carreira. Desde o filme pornô que fizera caseiramente com seu namorado, e que, após uma briga, o mesmo havia liberado na internet, até o ritual que havia feito algumas semanas antes com sua filha. Ela infelizmente havia falecido na noite passada, no hospital. Oficialmente fora uma pneumonia. Oficialmente.

O som dos ossos de sua perna direita se quebrando quando batera nos assentos não fora nada bonito. Lembrava o som de um galho se partindo, só que seguida de uma dor penetrante que a fizera gritar muito alto. Mas ela sabia que não podia ficar por ali. E foi por isso que mesmo com a perna destruída e chorando copiosamente a atriz começou a se arrastar. Agora era um arremedo da garota bela e sexy que fora horas antes, enquanto interpretava uma rainha em sua peça de teatro mais recente. Papel esse que lhe rendera aplausos, prêmios, dinheiro e homens. Mas agora, o que lhe valia tudo isso ela pensava? Seus olhos se fechavam de dor enquanto ela continuava.

Ainda no chão, foi então que ela notou as botas. Em meio às poltronas ela notou-as paradas a alguns metros de si. Ao levantar a cabeça viu então o instrumento que fazia o barulho de fricção. Uma faca de caça. Enorme.

O homem sorriu simpaticamente para ela e começou a se aproximar. Ajoelhou-se ao seu lado e, ignorando seu choro e gritos de “por favor, não”, segurou seu rosto com uma das mãos e com a outra começou lentamente a separar a pele do resto do seu crânio.

~ por Legião em Março 22, 2008.

Uma resposta to “Soberba.”

  1. Cara!
    Muito bom!
    Me lembrou muito um conto do Edgar Allan Poe,O barril de amontillado.
    Adorei a minúcia ao detalhar o ambiente!
    Sério, eu pude imaginar tudo.
    Mas me digam uma coisa:Porquê as letras acentuadas estavam escritas de um jeito diferente?Ou será ERRO DA FONTE MESMO?
    Pra mim era coisa da carta…

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