Ira e Egoísmo.

Sentada ela observava horrorizada a tela da televisão. Não poderia acreditar no que estava vendo. O que significava aquilo tudo. Quem tinha a ganhar com uma coisa como aquela. E como ela não notou nada de estranho.
Suas mãos tremiam diante do perigo que aquelas imagens significavam se fossem levadas a um tribunal. Ninguém suspeitava que ela, uma doce dama da alta sociedade, pudesse ter feito uma coisa daquelas. E com o próprio marido.
Desligou o televisor então. Atirando com fúria o controle remoto contra a parede e jogando no chão o aparelho de DVD, que se fez em alguns pedaços.
Observava agora os itens que haviam vindo junto com o DVD. Uma caixa de 2 metros de altura, por 1,5 de largura, de madeira lacrada e fortemente presa. E também uma faca de caça, enorme e aparentemente usada, por causa das marcas negras em sua lâmina e pelo desgaste do cabo.
Tentara abrir a caixa antes, sem sucesso. Então foi que ligou o DVD e assistiu ao conteúdo que a deixou quase em torpor.
Agora permanecia parada em frente à grande caixa, ponderando o que poderia ser feito, como poderia impedir esse DVD de chegar às mãos de mais pessoas. Talvez fosse apenas um chantagista atrás de dinheiro. E ela o daria. Isso e um pouco mais. E haveria o troco, em algum momento.
Ouviu então o momento em que a vidraça da janela a seu lado se quebrou, deixando entrar uma pequena bola de metal de cor escura. Durante alguns segundos, ela permanecera imóvel. Somente quando a granada começou a soltar gás lacrimogêneo foi que ela começou a correr para fora da sala.
Chegando ao corredor, olhou para trás. Notou uma forma escura assomando para cima da janela e espatifando o resto que havia sobrado da mesma.
Começou a correr para a escadaria do segundo andar em busca da porta que dá acesso ao escritório e à biblioteca de seu falecido marido. Entrou e imediatamente fechou a porta atrás de si.
A sala era aconchegante, lotada de livros de economia e direito por todos os lados. Uma lareira crepitava acesa à direita, enquanto à esquerda notava-se uma grande escrivaninha de carvalho negro.
Da sala podiam-se ver aos lados e abaixo a enorme biblioteca, que também servia como salão de troféus. A sacada do escritório dava acesso direto para essa para área adjacente, onde ficavam enormes prateleiras fixadas na parede, que compunham o segundo andar da biblioteca.
Correu em direção ao telefone para poder chamar sua segurança, mas notou apenas o silêncio que vinha da linha. A internet também não funcionava. Tampouco havia lembrado-se de pegar o celular no momento em que a vidraça se espatifou.
Notou o som de passos vindo pelas escadas e ficou imóvel observando a maçaneta da porta, calculando os passos de seu atacante, a espera de seu próximo movimento.
Lembrou-se do estande de armas que seu marido guardava no andar de baixo da biblioteca, e então se voltou para correr. Foi quando notou, do outro lado da sala, em mesmo nível que ela, um homem alto, de chapéu e com uma máscara de oxigênio no rosto. Usava um impermeável de couro negro totalmente surrado. E estava parado observando-lhe.
No momento em que ela fez menção de se mover em direção à escada que dá para a biblioteca, ele começou a correr em sua direção pela área da lateral do “mezanino”. Corria em uma velocidade incrível, mas não o bastante para conseguir pegá-la antes que já houvesse descido.
Ela agora corria em direção a um grande estande de armas de época, que ficava logo atrás de enormes prateleiras da biblioteca. Chegando ao local, notou que todas as armas estavam dentro de um grande armário, protegido por um espesso vidro fumê.
Esmurrou o vidro como quem estivesse zangada não com ele, mas consigo mesma.
Observou em volta, buscando algo que pudesse ser usado como arma de combate. Haviam por lá algumas facas e réplicas de espadas orientais, além de alguns tipos de lanças vindas da África.
Pegou uma pequena espada leve que encontrou repousando na bainha de um manequim samurai. E se pôs a andar cautelosamente, a procura de algum movimento que denunciasse seu perseguidor.
Postou-se ao lado de uma grande prateleira de livros e ficou a ouvir.
Notou o barulho de botas, calmamente andando na direção do estande, e então começou a fazer a volta por onde sabia que sairia atrás do homem mascarado.
Cautelosa e metodicamente ela foi. Passo a passo, centímetro por centímetro, até chegar a ver as costas do homem, alguns metros a sua frente.
Então ela começou a correr, empunhando a espada na direção do homem, para desferir-lhe um ataque mortal, mirando seu crânio.
Mas ele se virou. E ela notou em suas mãos uma pistola calibre 45, a mesma que ela e seu amante haviam utilizado no fatídico dia.
Ela sentiu então a dor e o sangue invadindo seu corpo. Cambaleou e caiu para frente. Não sentia mais o pé direito, apenas notava o sangue jorrando por onde a bala havia trespassado-lhe o tornozelo. A espada caira a alguns metros. E a chance de sobreviver, agora começava a diminuir. Tentou se apoiar em uma perna para se levantar, mas a dor fez com que desistisse da idéia no momento em que sentiu que iria desmaiar.
Ele então calmamente começou a andar em sua direção. E, com um sorriso no rosto, começou:
– Não queremos que você desmaie, queremos? Você perderia o mais interessante de nossa festinha. A parte em que eu faço com que você assista a mim, tirando as suas tripas, conforme você entra em choque, para depois não sentir mais nada, além do torpor que precede a morte.
Ele se aproximou mais e a pegou pela perna que havia tomado o tiro. Começou a arrastá-la em direção a porta que dava novamente a um corredor do primeiro andar e depois ao cômodo onde a bomba de gás havia explodido.
Ela começou a gritar no momento em que ele a tocou, pois a dor que sentia era excrucitante. A perna latejava e o sangue escorria por todo o lado. Seus olhos se enchiam de lágrimas e sua cabeça de ódio.
Foi então que ela notou um atiçador de lareira, próximo a porta da biblioteca. E no momento em que o homem passava arrastando-a pela porta, ela segurou em suas mãos o instrumento. Desferiu com fúria um golpe bem no meio das costas de seu algoz.
Ele vergou para frente, e imediatamente ela se arrependeu de tal ato, pois com um urro gutural, ele saltou em cima de seu corpo no chão, atirando o atiçador para um canto qualquer, e começou a desferir-lhe golpes diretos na cabeça. Em menos de um minuto, ela não enxergava mais nada. Apenas a escuridão tomava conta de seu corpo.
Acordou com um grito, saído de sua própria garganta, pois sentia o ferro quente a queimar-lhe a perna. Observou com lágrimas nos olhos, o momento em que o atiçador vermelho, por ter sido esquentado na lareira próxima, se afastava de seu tornozelo.
O homem jogou mais uma vez o instrumento para longe e se sentou em uma poltrona próxima a ela. Calmo como um psiquiatra, com a diferença de que uma grande pistola jazia em eu colo, brilhante e mortal.
- Eu não podia deixar você morrer por perdas de sangue. Qual seria o objetivo de fazer isso? – Disse ele.
- Objetivo? Você é louco por acaso? O que você quer de mim? Você veio me chantagear? Matar? O que você quer?
- Eu só quero que você me dê o endereço de seu namoradinho para que eu possa fazer-lhe uma visitinha após eu sair daqui. Pois assim como você, ele também está metido nisso até o pescoço.
- Quem é você? Você foi enviado pela família do Edward? É isso? Eu sabia que aquela vadia não estava acreditando.
- Não, eu não sou da família dele. E tampouco conheço essa que você chama de vadia. Mas como eu disse: o endereço de seu namorado, por favor. Ou você já fez com ele o mesmo que fez com o seu marido? Ah, desculpe. Ex-marido. Pois creio que pessoas falecidas não contam muito bem como cônjuges ativos, não é mesmo?
- Seu… – ela sentiu a dor voltar mais uma vez, como uma rubra onda que invadiu todo o seu corpo, e a fez quase perder os sentidos.
- Eu não tenho… Nenhum namorado, seu monte de merda.
- Nunca é uma boa estratégia tentar tirar do sério um homem como eu. Pois sabe como é, nós não temos muita paciência… Ou pena. E eu acho que você não necessita das pernas para me falar nada, não é mesmo? Ou seja, eu posso removê-las se eu quiser.
- Eu sei que você tem um namorado. Sei até mesmo o nome dele, ao menos o nome que ele deu a você. Sei também que vocês dois mataram o seu marido para que você pudesse ficar com toda a fortuna que ele arrecadou com todos os anos de trabalho duro. E sei que você não quer morrer nas mãos de um psicopata. É só me dar o endereço que eu vou para lá estripá-lo.
Ela o observou durante alguns segundos, tentando decifrar o rosto do homem que agora a ameaçava com uma faca. Não conseguiu ver nada. Talvez pela dor que sentia, talvez pela perda de sangue, ou talvez porque não tivesse conhecido ninguém tão perverso e insano nesse mundo. Alguém que ela não podia analisar.
- Você… Vai me deixar sobreviver…? Você só quer matá-lo? Não a mim?
Ele sorriu para ela por alguns instantes e se sentou novamente na poltrona, cruzando as pernas e acendendo um cigarro. Estava quase satisfeito.
- Sim, eu vou matar apenas ele. Eu prometo que, se você me entregar o local onde ele mora, apenas ele sairá morto essa noite.
- Eu… Eu… Se eu contar, como eu saberei que você não vai me matar? Você pode muito bem simplesmente me dar um tiro logo depois… – Ele sacou a arma, retirou o pente, entregou-o nas mãos dela, e puxou o cano da arma, fazendo com que a bala na agulha saltasse para fora do tambor. Puxou a faca de caça e a entregou também a ela.
Ela ponderou se não poderia fazer nada com as armas que agora possuía. Mas sabia no fundo que, contra alguém assim, esse tipo de coisa não faria muito efeito. E no estado em que estava não poderia tentar nada.
- Ora vamos, eu sei que você provavelmente já havia mandado matá-lo mesmo. Você tem muito a ganhar com sua morte também, afinal não terá que dividir o dinheiro com ninguém mais.
- Tu… Tudo bem… Eu conto. Contanto que você o mate de forma rápida.
Ele começou a rir de uma forma muito sombria. Parecia que ele estava zombando dela naquele momento. Viu quando ele se levantou, passou por ela e foi até a grande caixa de madeira. Em seguida puxou a faca que estava cravada na madeira e também um controle do bolso. A caixa então se abriu, mas ela não conseguia ver seu interior. Mas quando ele levantou de lá um grande saco preto e com a faca o cortou na borda, revelando um rosto familiar, ela entendeu o motivo.
O assassino tirou a fita que prendia a boca do homem que estava anteriormente preso dentro da caixa. Seus olhos estavam vermelhos de lágrimas e fúria. Ele não podia acreditar que a mulher que amava, a mulher pela qual ele havia matado, agora descartava a sua vida como se descarta um cão sarnento.
Ela olhava para ele em choque. Então o assassino sabia de tudo: do endereço de Shane, do plano, do dinheiro. E mesmo assim, em um retoque sombrio, a fizera concordar com a morte de seu amante.
Com a faca então, as cordas que prendiam as mãos foram tiradas e o homem se levantou.
- Sua… Sua vadia. Você ia dar meu endereço, minha cabeça a esse homem? Eu não acredito. Eu amei você. Fiz tudo o que você quis. Matei por você. E agora isso…
Ele ignorava o homem que agora circundava ambos, e que apenas observava os acontecimentos, como um jogador que já fez sua jogada.
- Você tinha mandado me matar já, como ele disse?
- Shane… Eu… Eu…- começou a chorar então, e começou a se afastar em direção a poltrona, para longe do amante.
- Fale-me, é verdade ou não?- ele pegou a faca que estava caída no chão- Vamos, me diga, eu quero saber!!!
- Shane, sim é verdade… – ela então pegou a arma que havia sido esquecida pela assassino no sofá, pôs o pente e então deu diversos disparos. Mas não antes que o homem tivesse saltado para cima dela com a faca em punho.
O sangue pintou o chão de vermelho. Ele caiu para o lado, em cima do colo dela, com três tiros certeiros no meio do peito. E ela agora via tudo escurecer devido a lamina que trespassava-lhe o ventre. Sentia o abraço doce da morte e a dor de perder tudo o que havia conquistado em anos, em apenas algumas horas. Seu marido, seu amante, seu dinheiro, sua vida. A ira e o egoísmo, agora nada significavam. De mãos dadas iam em direção a infinita escuridão.
Satisfeito, ele tirou a máscara e sorriu. O trabalho estava quase completo.


wow! O.O
amazing. achei tão incrível o final, com a morte dos dois – sem necessariamente ajuda do psicopata. bah, muito boa a história. boa mesmo!
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