Orgulho.

Sentiu um corpo trombar com o seu enquanto andava desnorteadamente entre o fluxo de pessoas da Rua Baker. Não conseguia encontra nenhum ponto de referência que pudesse lhe localizar ali, naquele caos. A rua estava lotada por todo o tipo de pessoa. Desde turistas em busca das pirâmides, passando pelos vendedores de quinquilharias que a todo o momento queriam vender alguma inutilidade que os estrangeiros achariam linda para poder se exibir diante de seus amigos burgueses, chegando até as dezenas de senhoras que vendem petiscos de todos os tipos, instaladas no meio das calçadas ou em uma das centenas de tendas que havia pela rua. O mercado árabe. Literalmente uma Babilônia aglomerada em uma única rua.

Estava desnorteada, procurando um local onde pudesse entrar para pensar por alguns segundos. Mas não sabia o que fazer. Tinha certeza de tê-lo visto, ali, a alguns metros dela, a observando atentamente, os olhos verdes em chamas. A paixão cega.

Havia saído de seu país por sua causa. Por causa da carta. Sabia o que acontecia com quem a recebesse. O triste fim que as aguardava, um fim sem nenhum tipo de pressa. Um encontro marcado. Ele era um Devorador, como ele mesmo dissera a ela em algumas das sessões. Lembrava-se das palavras, da expressão em seu rosto. Da paixão. E de como tudo aquilo ficava ecoando em sua cabeça a cada momento.

Lembrava-se de como aquela expressão serena de homem austero se transformou rapidamente em um rosto animalesco, disforme, brutal, e de como quase não escapou com vida do consultório naquela tarde.

Mas porque ela?

Não havia nada que pudesse tê-la feito entrar em sua lista, ou seja lá o que for que ele tinha em sua cabeça. Distúrbio de personalidade, lembrou ela. Foi o que disse aos médicos após o período de avaliação. Lembrou-se de ter apelado para que tomassem cuidados, para que não o mantivessem junto de outras pessoas, para que lhe tratassem como deveria ser tratado. Um homem doente.

Riram da cara dela, os policiais e seus colegas. Era apenas mais um marginal. Mais um dos milhares que havia espalhados pelas ruas, um dos desafortunados. Ela sabia que não estava errada, nunca. Não ela. Eles estavam errados, quem eram aqueles que ousavam discordar de seu laudo. Ela que era reconhecida em tantos lugares. Logo ela.

Olhou por cima do ombro e notou o chapéu, em meio à multidão, no espaço entre uma pessoa e outra, e correu, esbarrando nas pessoas, derrubando quem estivesse em seu caminho. Caiu para dentro de uma tenda, onde um homem conversava com uma jovem garota. Notou o olhar enfurecido do homem e tentou uma desculpa qualquer na língua nativa, enquanto se esgueirava por debaixo do pano que compunha os fundos da tenda.

Olhou a frente e notou as escadarias de um hotel barato e imediatamente correu para seu interior. Sentia-se um pouco tonta agora. A adrenalina corria por seu corpo. Suas mãos tremiam, sua boca estava seca, seus pensamentos velozes.

Subiu rapidamente pelas escadas de madeira, ouvindo o barulho de seus sapatos ecoando por todo o local. Tirou-os e segurou-os com as mãos. Corria ainda, mas tendo o cuidado de fazer menos barulho possível.

Terceiro andar.

Ela se escorou no corrimão para descansar por alguns segundos. Sua cabeça rodava vertiginosamente e sua visão estava um pouco turva. Não tinha almoçado e provavelmente sua pressão estava baixa. Precisava respirar.

Porque ela? Talvez por ter recusado ajudá-lo em sua caçada? Ou por ter dado seu endereço ao FBI?

Ouviu o som de sapatos subindo calmamente as escadarias. Olhou para baixo, para tentar ver alguma coisa, mas devido à luz escassa e bruxuleante somente notou o volume negro que subia as escadas. Mas sentia que era ele. Só podia ser ele. Desde o começo das sessões ela tinha a estranha sensação de ter sido escolhida por ele. Ela dentre todos. Mas não era difícil notar-se porque era ela…

Correu mais uma vez, em direção a janela aberta que dava diretamente para o prédio ao lado. Dava graças a deus pelos arquitetos de terceiro mundo fazerem prédios tão próximos. Soltou os sapatos e saltou para a varanda próxima.

Sentiu a vertigem atingi-la em cheio enquanto ainda estava no ar entre os dois prédios. Sentiu suas mãos falharem ao segurar o corrimão da varanda e seus olhos escurecerem no momento em que sua cabeça atingiu o chão já dentro do prédio ao lado.

Sentiu o liquido quente escorrendo-lhe pelos cabelos e viu a mancha carmesim que estava espalhada pelas lajotas brancas do banheiro.

Abriu a porta e estava agora em um corredor. Uma residência parcamente mobiliada. Apenas o necessário, pensou ela, ou apenas o que se conseguiu obter naquele fim de mundo.

Andou devagar enquanto andava pelo corredor. Seguindo em direção à escada que levava para o andar de baixo, prestando atenção para qualquer ruído.

Teria ele a incluído na lista por ela ser rica? Queria ele seu dinheiro? Não. Esse tipo de louco não está atrás disso. Lembrou-se de como ele falou certa vez sobre como ela tinha obtido suas posses e de como deveria sentir orgulho de tudo que havia conquistado com os anos de estudos e serviços prestados, os prêmios e o reconhecimento dentro do mercado.

De certo, em sua cabeça, ele pensava que ela não merecia esse tipo de coisa, esse tipo de vida. Deveria ter em algum lugar escondido em sua mente algum tipo de comunista revolucionário ao extremo.

Seus joelhos tocaram o chão, ela sentiu mais uma vez as mãos falharem. Estava fraca, deveria ser por causa da exaustão e da falta de sustento. Ouviu um barulho vindo do andar de cima e então acordou.

Tentou se apoiar em um criado mudo que estava próximo, mas só conseguiu fazer com que ele virasse junto dela quando caiu no chão. O barulho deve tê-lo alertado, pensou ela. E então cambaleando ela se dirigiu para uma porta próxima. Podia ouvir seus passos descendo as escadas, em segundos estaria aqui. Tinha algo prendendo a porta. Ouviu do outro lado alguém falando alguma coisa, mas não conseguia entender. Gritou por socorro. Ele agora deveria estar nos últimos degraus, já podia senti-lo olhando para ela. E foi então que viu um clarão.

Notou os pedaços de madeira que subiam acima de sua cabeça. Os buracos feitos na porta, os olhos aterrorizados da mulher do outro lado. E os olhos furiosos do homem com uma espingarda.

Ele deu mais um tiro. E ele caiu no chão a algum metros da porta.

Ele devia ter fugido pensou ela, quando ouviu o grito da mulher. Deve ter sido isso. Mas agora ela estava protegida, ele não podia mais pegá-la. Não. Agora tudo ia ficar bem.

Tudo ia ficar bem.

The first time is the most difficult.

Every time is the most difficult.

Sin is small black larvae,
squirming among the vegetables,
maybe in the mashed potatoes.
perhaps among the green beans.

It is slimy, dark and fast.

It is sightless, but still searching,
even at the end, for a host.

It can be trapped with a fork,
captured with a spoon.
It should never be sliced with a knife.

Sin has no taste.
The sin you eat for others,
for those recently deceased,
it has no taste.
It does, however, have texture and movement.

After you have eaten,
do not think upon what you have done;
Don’t fear being alone.

Remember no one is without sin,
no one, not even you.

~ por Legião em Abril 26, 2008.

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