A
Isto é a História de uma longa conversa. Contínua e eterna enquanto os que nela dialogarem forem iguais aos de agora.
Ares está na sala, dorme o merecido sono dos inocentes. Asmodeus está no quarto, tenta descobrir o último nome de Deus. Relaxa os dedos das teclas da velha máquina. Confuso e exausto, acende um cigarro e fecha os olhos. Pouco depois, o som da máquina de escrever interrompe o silêncio:
“Esta letra A será escrita exatamente agora:”
“A”
De repente, A cresce. Treme desconfortavelmente e cresce. Em um instante já cobre as outras letras com seu tamanho, até que descola da página e infla, toda preta e triangular.
Aeu, Asmodeus, atônito, ando até a ala. Alá! Antevendo Aleph ali, acordo Ares. Assustados…
Os dois saem da casa moderna e miram a hipnótica A. Sua ponta quebrou um lado da casa, felizmente, porém, foi contida pelo concreto armado em ferro. Passado o perigo, Asmodeus e Ares continuam o diálogo:
- A fumaça helênica chega em todos os lugares, caro Ares. Invade toda fenda, através do tempo. Ela queima. Palavras são engolidas, músicas emudecem: a informação borbulha virtualmente e estupidamente, evaporando do mundo real.
- Informação é poder, revolução contra-apocalíptica, as cidades vazias previstas não serão construídas.
- Construída será então a barbárie, camarada. O poder deve ser evocado do passado, estabilizado. Autoridade terrena não manda no meu terreno.
- Ipsis litteris, comerciante oriental, mas não entenda mal. Não haverá barbárie, ela será sufocada. Amemos o conhecimento e esperemos. Fique com seus irmãos e seu Deus – os escravos são meus.
- Virtus et fortuna? Chega! Nego-me a ver teu deus. Em um tempo ao Oeste já fomos irmãos, isto não é lógico?
Param. Asmodeus apaga o cigarro. Olha a lua. Olha Ares. Este olha para a casa. Olha os chifres do Alpha e sente por um instante um delírio. Seria o início o fim de algo, e este fim um novo início? Se assim for, este algo é o único? Talvez então uma coisa seja todas as coisas. Um homem, todos os homens.


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