Um Expresso e um Capuccino.

- Sabe cara eu estava pensando nas pessoas.

- Como assim?

- Ah sei lá. Sabe no quanto as pessoas gostam de estar no escuro sabe, de nãos saber das coisas. É aquilo de que algumas vezes é melhor ignorar certas coisas em função da felicidade. E de certa forma só somos felizes se formos ignorantes, como se o conhecimento trouxesse a infelicidade.

- Por isso que o Brasil é o país da alegria né?

[Risos]

- É cara, e isso me indigna muito, pois as pessoas daqui têm valores completamente diferentes do que seria o coerente de se ter. Parece que a única coisa que importa para eles é: Carro, grana, e bunda, e não cultura e conhecimento, que de certa forma podem lavar você a ter qualquer uma dessas três coisas.

- É cara, inteligência é um afrodisíaco né? Por isso que ce é um gatão disputado.

[Risos]

- Idiota.

- Ah cara, tu tem que entender que cultura é relativa para as pessoas sabe. Veja bem, o que eu quero dizer é que o que pode ser útil para você pode não ser para outras pessoas cara. Por exemplo, toda essa sua mente esta cheia de regras de RPG, histórias em quadrinhos e nomes de sites pornográficos cara. O que com certeza pode ser considerado inútil para outras pessoas. No nosso mundo tudo depende de um ponto de vista. Uma coisa pode parecer ruim para você, diria até mesmo abominável, como a comida da sua mãe, mas para outras pessoas pode parecer maravilhosa, como para você. É tudo uma questão de ponto de vista. Não existe somente o preto e o branco no nosso mundo, não estamos dentro de um gibi da Marvel, ou de um filme de duas horas de duração. Não, na vida é tudo uma grande escala de cinza.

- Nós seres muitas vezes humanos somos estranhos mesmo. Tipo, eu não entendo todo esse nosso cinismo cara sabe?

- Tipo, o jeito como lidamos uns com os outros cara. Nós fingimos que gostamos das pessoas e na verdade não gostamos metade do que realmente aparentamos e mais do que gostaríamos. Todos os sorrisos, os “bom dia”, os acenos e conversas sem conteúdo. Sabe, eu não entendo porque nós não somos simplesmente verdadeiros e ficamos só com as pessoas que nos interessam.

- É por esse tipo de coisa que te chama de anti-social cara.

- Ah meu, o que as pessoas não entendem é que eu não sou anti-social com todo mundo. Apenas com elas.

[Risos]

- Ah cara, é que eu não suporto ter que falar de frivolidades com alguém que eu não quero conhecer.

- Cara, por pior que pareça a nossa sociedade se baseia apenas no cinismo, ambição e egoísmo. Nós todos fingimos que somos amigos, fazemos planos com outros para ganhar alguma coisa, mas pensando em guardar no fim, todo o lucro para nós mesmos.

- Se todo mundo fosse que nem o Capitão América ou o Aranha cara, o mundo ia ser uma completa chatice. Tudo muito calmo, tudo igual, da mesma forma não teríamos sobre o que conversar cara em algum momento. O que nos faz nos dar bem um com o outro, eu acho, é que somos na verdade seres marginalizados. Não da forma “Ei mano, eu sou d gueto…porque nois aqui da quebrada se juntemo…”, mas de certa forma marginalizados por aceitarmos outro tipo de cultura e conhecimento do que a sociedade que nos rodeia considera pertinente.

[Risos]

- Ah cara, sabe. Nós quadrinhos é que os nerds que nem nós sempre se dão bem meu. Tipo o Capitão, o Aranha, o Hulk… Todos eles eram nerds cara, mas se tornaram os mais tris heróis.

- É cara, concordo com o Capitão e o Aranha cara, mas o Hulk meu? Tipo cara, ele é verde. Verde… e burro.

- Mas ele pode destruir uma cidade meu.

- Mas pra que? Tipo, o capitão é super forte e é um símbolo de justiça e tal, o Aranha é o cara simpático, forte, o amigão da vizinhança, e ambos podem usar os poderes para impressionar as garotas, e sei lá, salvar a cidade. Mas cara, eu não acho que se tornar gigantesco, burro e verde seja uma das coisas mais sexys do mundo…

[Risos]

- Mas a Bettie Ross é gatona cara, e é apaixonada por ele.

- Aff.

- Tu falou sobre o símbolo que é o Capitão cara, e sabe eu me lembrei duma coisa que eu tava pensando sobre o conceito dele.

- Tipo, o cara tinha uma vida lá em 40, na época em que ele foi convidado a tomar o soro do super-soldado. Então ele fez parte do experimento e passou de nerd da qual nós falávamos a maior arma americana contra os chucrutes. Virou esse símbolo e depois “morreu”.

- Então ele voltou à vida novamente uns 50 anos depois cara, em uma época totalmente mudada, diria até mesmo em um mundo novo. A era da inocência já havia passado, e o que sobrou foi somente a nossa sociedade. Egoísta, cínica e ambiciosa, sempre atrás de lucro, e tendo como o seu maior império capitalista destruidor de mundos, o seu país de origem, pela qual ele lutou por tantos anos na segunda guerra.

- E?

- Tipo, o cara representa um mundo que não existe mais cara. Tudo o que ele é tudo pelo que ele lutou um dia morreu cara. O país pelo qual ele lutou se tornou um dos maiores vírus para o planeta em que vivemos. Imagina como ele deve se sentir todos os dias em que acorda cara, sabendo que ele é apenas uma arma de anteontem, que os ideais pelo qual ele luta já foram extintos? Ele tem tudo para ser uma das pessoas mais amarguradas e ranzinzas cara, mas ao invés disso ele resolve se levantar todo o dia e lutar. Ainda vestindo a bandeira do país que abandonou ele. É por isso que eu o admiro meu. Não porque ele veste as cores da América, mas porque ele é um herói de verdade. Ele é o tipo de cara que tu sempre vai olhar e pensar “puta que pariu cara, ele tá aqui mesmo!!!”.

- É cara, o Capitão é o cara. Eu casava com ele.

[Risos]

- Ce é um doente cara. Tu deve ser tipo o Sergei que é pansexual e fez sexo com uma palmeira meu. Seu doente.

[Risos]

- Isso me lembrou o clipe do The Darkness cara, em que aquele vocalista que eu juro é igual ao Robert Plant quando não era gordo estranho, fica se secando depois de sair do banho em um cara vestido de urso.

[Cara de "puta merda?"]

- Cara, tu precisa de uma namorada, e urgente…

[Risos]

- Um expresso e um capuccino por favor.

A moça os olhou como se fossem apenas mais dois lunáticos excêntricos. Mais dois jovens transviados que passam por ali todos os dias fazendo anarquias e por isso mandou o segurança ficar de olho neles. Mas o dia ainda iria continuar calmo. Alguns dias, talvez alguns anos.

~ por Legião em Junho 13, 2008.

Uma resposta to “Um Expresso e um Capuccino.”

  1. o ruim é que eu odeio nerds. o bom é que não da perceber bem quem é quem, o que dá um toque de “todo homem (antropos) é todos os homens”. pretendo mandar hoje a primeira parte de um diálogo (me inspirou), que falta pouco pra concluir.

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