Não consigo deixar de pensar nela, e em como as coisas fugiram do controle. Minhas malditas costas doem por ficar tanto tempo deitado nesse maldito trem de carga. O barulho de vento faz com que eu me sinta em um livro de Lovecraft. Eu fico esperando a escuridão me engolir, para que eu suma anônimo na noite cheia de brumas. Mas ao invés disso tudo o que eu vejo pelas portas do vagão são as luzes acesas das casas nas cidades em que passamos. Como vaga-lumes iluminando a noite escura.
A bebida antigamente me fazia esquecer de todas as coisas. Todas as coisas que eu fiz, pensei em fazer ou deixei de fazer. Mas o daí seguinte sempre era pior. Aquele gosto amargo na boca, aquele mal estar no estomago, e a vergonha.
Agora eu larguei toda aquela porcaria de mão. Aulas, compromissos, amigos, família. O que tudo isso significa? Ilusões? Tudo parece um grande Almoço Nu às vezes. As coisas não fazem sentido, aceleram, ou andam mais devagar.
Acho as vezes que eu não deveria nunca mais descer deste trem de carga, a não ser para comprar comida e cumprir com algumas necessidades fisiológicas ocasionais. Viajar para sempre. Fazer dos trilhos a minha casa. Pois afinal, fora daqui o que resta? Pessoas? Ah, pessoas. Eu já tive o bastante delas. Filas de banco, almoços de família aos domingos e a hipocrisia. Maldita hipocrisia. Porque as pessoas não podem falar somente às coisas que realmente sentem umas pelas outras. Assim nós teríamos ao nosso lado apenas as pessoas que realmente gostam de nós, e não um bando de cretinos que ficam babando ovo e dizendo os famosos “oi, tudo bem, como vai você?” ‘oi, eu vou bem, como vai à família?”, “claro que sim, nos falamos em breve, te ligo”/
O certo mesmo seria explodir tudo. Pegar aquelas malditas bombas russas e americanas e fazer uma grande festival de fogos. Daí sim tudo estaria certo. Poderíamos começar tudo de novo, e tentar dessa vez fazer da maneira certa. Claro que poderia demorar milhões de anos até que voltássemos a andar eretos. Mas também, o que é o tempo? O futuro vai ser o agora. Assim como o passado foi o agora ontem.
Penso que poderia formar uma espécie de sociedade utópica sabe? Pegar os amigos e amigas mais próximos e legais, sem os puxa-sacos, e nem o proto intelectuais fajutos, e partir para algum lugar no meio do mato e construir algumas cabanas. Viver da terra ou algo que o valha.
Mas talvez mesmo, esse vagão seja o lugar certo para o meu agora, e o agora do futuro eu deva deixar para que os ventos decidam. Afinal, as coisas que mais puras, são aquelas feitas sem ambição. E minha mente cansada não consegue pensar em mais nada além de o quão gelada e dura está minha maldita bunda.







Monk´s Mood – Thelonious Monk
Falling – Alcia Keys
