Não enfrentes monstros sob a pena de te tornares um deles.
E se contemplas o abismo,
A ti o abismo também contempla.
- Friedrich Wilhelm Nietzsche
Sabe como eu sei que uma historia foi boa, se realmente foi bem contada?
Porque eu sinto.
É o chamado feeling. Aquilo que os músicos memoráveis têm em si, que os tornam diferentes do resto da grande massa. Aquele jeito de improvisar, aquela forma de sentir, de tocar o mundo fluindo ao seu redor. Aquele fechar de olhos no sol, para que possamos por apenas alguns momentos sentir o calor em nossos corpos. A sensação.
Pois bem, pra mim é assim. Eu sinto.
Mas não é qualquer filme de sessão da tarde que anuncia em “primeira mão” as aventuras de uma “turminha da pesada” que me fazem ter esse feeling, nem mesmo histórias tristes sobre um cachorrinho que se perdeu de seus donos durante a mudança. Não isso não. Histórias boas me fazem ter este feeling. E por sua vez o feeling se faz notar apenas quando ouço/vejo alguma história boa.
Dizem que o nosso cérebro não sabe realmente identificar uma situação real, de alguma coisa magnificamente produzida em algum estúdio de Hollywood. Por isso ficamos com medo quando vemos Jason estripar alguém, ou aquela menina que precisa de um cabeleireiro saindo do poço, ou aquela riste historia sobre a morte do marido de alguma mocinha que lhe faz alguma surpresa pós morte.
Em suma o sentimento vem em uma onda irrefreável, e acomete-me durante algum tempo, e eu me torno um com a história, absorto em seu mundo. Durante apenas alguns segundos talvez. Mas segundos estes, que já fizeram valer a pena cada palavra lida, cada cena vista, cada segundo desperdiçado.
Pois que ultimamente eu tenho me cercado de boas historias. Muito boas por sinal. A maioria claro, por indicações de amigos/ amigas, e uma até mesmo por forças maiores, ou diria eu, pessoas maiores e mais fortes.
Em primeiro lugar me veio a vontade de voltar a ver uma série que durante alguns dias foi minha obsessão, e ainda anos depois continua como a minha top 3 em qualquer lista de boas histórias.
Cowboy Bebop.
Uma ótima série, ambientada em algum futuro distante, mas ironicamente muito parecida com a nossa realidade, onde cowboys (caçadores de recompensa) vagam por ai atrás de bandidos. Toda a história tem um visual retro, talvez pulp, um pouco pop steampunk, com desenhos fluidos, e roteiro bem amarrado e adulto. Como eu gosto.
Lembra-me de certa forma uma extinta série da Fox chamada Serenity, onde um grupo de Cowboys espaciais viaja por ai fazendo as mais diversas coisas possíveis.
Mas cowboy, ou devo dizer, o criador teve o ótimo senso de timing, ou seria feeling? De fazer apenas 26 episódios, e um filme, que por sinal é tão bem feito, ou talvez melhor do que a própria série em si.
26 Episódios fizeram com que eu me sentisse um dos personagens, com que me identificasse com eles. Com que ao chegar a casa eu lembra-se de que um novo episodio eu veria, uma nova história, uma nova visita a este mundo fantástico. Mais ou menos igual à vez que li o apanhador no campo de centeio. Identificação. Foi isso que aconteceu.
Mas como o tempo não pode voltar só continuar, uma hora os episódios acabaram, de forma triste, mas sóbria. E foi como se amigos queridos me tivessem dado a noticia e que iam viajar para muito longe.
Aquela sensação de perda sabe? Aquele vazio, aquela saudade.
É isso que uma boa história nos faz sentir.
Foi então que na internet vi algum anuncio sobre uma revista que possivelmente ia ganhar o Eysner Award deste ano, uma tal de Pride of Baghadad (Leões de Bagdá). Escrita por Brian K. Vaugham, que sei eu é um ótimo escritor resolvi ler também.
Baixei o arquivo (vocês não acreditam no quanto eu economizo em quadrinhos, apenas buscando eles no Pirate Bay), e comecei a ler.
Uma história que começa devagar, mostrando a vida de quatro leões (na verdade um leão, duas leoas, e um filhote) que viviam no zoô da cidade de Baghadad na época em que os Estado Unidenses resolveram invadir em busca de seu petr… quer dizer, terroristas.
Li mais tarde que se tratava de uma historia baseada em fatos reais. Mas claro, os leões não falam na vida real, bem, ao menos não em uma língua na qual nós entendamos.
Continuei a ler sobre como eles escapam das grades e fogem das explosões, adentrando uma cidade semi-deserta em busca de alimento, e de abrigo. Como encontram uma tartaruga anciã, atormentada pelo último conflito por petróleo na região, que vitimou sua família. Como se recusam a comer um cadáver humano, citando lealdade as pessoas que durante anos lhes alimentaram.
Mais uma história que passo a passo me levou a uma conclusão surpreendente. Forte. Até mesmo brutal. Mais uma vez a identificação.
E para aqueles que eu sei que não vão baixar eu vos digo:
Assim como na vida real, brutal. Também os leões são mortos pelo exército.
Pois são assim mesmo os sentimentos. Brutais, violentos. Em boas histórias eles nos violam sem permissão (me perdoe o trocadilho com o Comediante).
Eu que desconsidero de importância muitos dos sentimentos, os encontro em páginas amarelas, ou digitais de quadrinhos, ou em frames de animes.
A citação do começo do post é de Nietzsche, mas também é encontrada na última página do capítulo VI de Watchmen, onde finalmente vemos o rosto de Rorschach, o anti-herói que simboliza tudo o que boas historias proporcionam a nós.
A brutalidade, a paixão, e nesse instante a identificação.
Ele não é só mais um personagem e alguma história em quadrinhos ridícula a que poucas pessoas ouviram falar, ou se ouviram foi de relance.
Seguindo a máxima de seu criador eu diria que no momento em que aceitamos as suas idéias, e o temos com alguma personalidade, ele existe. Em alguma dimensão fora da nossa é claro, mas existe. Como todos os nossos sonhos e pensamentos existem, se não no futuro, no passado, ou em algum lugar paralelo a nós. Como na casa de espelhos do parque de diversões, onde vemos a nós mesmos de diversas formas diferentes, de diversas perspectivas.
Eu escrevo nesse momento para que o feeling não passe por minha mente a acabe apenas em mais alguma história mental infrutífera. Eu escrevo agora para exorcizar o pensamento que me assombra, para queimar em minha mente as palavras e idéias, para que elas sejam varridas de minha mente, mas não desta realidade. Como um mago que decorou suas magias, e as dispara, esquecendo-as até mais uma vez decorá-las.
Posso eu dizer sem medo, que prefiro muitas vezes as páginas dos quadrinhos, os rostos em filmes e animes, até mesmos as histórias de minha cabeça, ás pessoas de nossa realidade. Porque por mais que um vilão seja inescrupuloso, por mais que um ato seja horrendo, ainda nos quadrinhos eles meramente fazem parte de uma boa história, de um bom conto, que vai ter alguma hora um fim. Mas a vida real é muito pior, é muito mais negra do que qualquer história, e essa não tem fim, pois mesmo que não sejamos mais personagens ela continua em uma ciranda psicótica para sempre.
Na vida real não existem super heróis espancando os vilões. Na vida real não existe bem e mal. Apenas uma grande escala de cinza, a qual todos nós nos encaixamos.
A vida real é mais cínica, negra, úmida e terrível do que o mais bem executado dos quadrinhos, do que a mais bem contada das histórias, mas ironicamente não me desperta nenhum feeling.
Ps. Comecei a ver Death Note, Comprei o primeiro livro de RPG em dois anos E um casaco muito New York.