Eu sou um homem a frente de meu tempo

Especificamente dois minutos e 30 segundos a frente.

Com naquele filme do Nicholas Cage, só que com mais inteligência, menos glamour e sem Jéssica Biel.

Se eu sabia que aquilo ia acontecer com a terra? Sim eu sabia.

Você não tem idéia de como dois minutos e trinta podem significar a diferença entre a vida e a morte. Para mim já fizeram a diferença 23 vezes.

E daqui a um minuto e 27 segundos não vai ser diferente.

O céu cor de ferrugem abriga um mundo que não e mais o mesmo. A natureza retomou grande parte daquilo que era seu por direito, e hoje os filhos mais jovens de um Deus caótico vivem como podem em uma terra selvagem.

O dinner na beira de um grande desfiladeiro lembra filmes dos anos 50 na qual jovens se reuniam em frente a tais estabelecimentos para logo depois saírem em uma descontrolada corrida descendo os vales próximos.

No interior do local uma mulher assustada olha para o cano de um enorme e prateado logotipo da Smith & Wesson, sabendo que o próximo projétil pode não ser apenas para assustar, e ao invés de quebrar o vidro da porta da geladeira de bebidas, pode espelhar um liquido muito mais denso que o mais venenoso destilado.

- Ria comigo gracinha…porque você não esta rindo? Não acha engraçado que eu tenha perdido tudo aquilo que eu tinha? Ria!!!!!!!

A porta se abre fazendo aquele irritante barulhinho de conchinhas para avisar que um novo consumidor chegou a casa.

Os quatro homens olham de imediato o magro jovem que acaba de entrar com seus fones na cabeça, e parece nem ao menos notar o que esta a acontecer.

- Hey, seu idiota!!! Você não esta vendo o que esta acontecendo aqui?

[Somente o som que emana dos fones é ouvido em resposta]

- Hey seu monte de merda, você não esta me escutando?

O homem sorridente se aproxima apontando a arma e rapidamente é puxado por sobre a prateleira de bolachinhas recheadas. Ele olha atônito e se vê sendo atirado de um lado para o outro por algum animal feroz, indo parar sobre o corpo de outro de seus companheiros. Os projeteis começa a vorá para tudo o que é canto, como mendigos, procurando algum local para se alojarem.

Uma mulher grita.

Um dos projeteis disparados por um homem negro e alo a atingiu no meio da perna direita. O homem procura por seu alvo que sumiu em meio ao mar de comida congelada. Seus olhos vasculham o perímetro, e vêem somente a enorme bandeja de peixe congelado vindo em sua direção.

Seus olhos sentem o gelo se partir, assim como o próprio nariz, somente para rapidamente serem esquentados em uma maquina de café expresso.

Ele grita pelas queimaduras de segundo grau na face e é nocauteado por um chute.

- Parado ou eu mato a velhinha!!!

O jovem de cabelo rastafári parece estar realmente falando a verdade, e pelo olhar em sua face ele não iria sentir nenhum tipo de remorso em fazer às vezes de Pollock com a senhora presa em seus braços.

- Você me ouviu seu Hippie de merda? Eu mato essa velha!!! Larga a arma agora!!!

A voz sai calma, quente.

- Eu acho que você se enganou garoto. Eu não estou aqui fazendo caridade. Eu não salvo pessoas, nem tiro gatinhos de cima de árvores. Isso aqui para mim é trabalho.

- Seu idiota sem coração – Brada a Sra. Bradley.

- Seu cowboy filho da mãe! – Grita o rastafári.

Ele empunha a arma como os velhos samurais empunhavam suas katanas, e o som alto, e curto do disparo é ouvido. Mas quem cai no chão é o Rasta. Atingido em cheio na mão. E depois mais uma vez no ombro.

Tudo acabou.

A velha observa o corpo ofegante caído no chão.

- Hey, ele te chamou de cowboy. O que diabos é você?

O som da bebida se esvaindo pelo chão.

- Apenas um humilde caçador de recompensas.

Eu os vi, vi sim. Eram sete. Todos vestidos como se fossem de algum tipo de tropa, com coletes e armas. Todos andando pelas ruas escuras da cidade. E então eles começaram a pichar aquele símbolo na parede. Foi quando eles nos notaram e começaram a atirar. O Frank e o Sid levaram tiros [som de choro]… e… e eles estavam ali gritando por ajuda, mas eu… o que eu podia fazer, eu não queria morrer.. eu tive que correr o mais rápido possível.

Eu achei que fosse algum tipo de gangue nova dominando a área, e por isso não vim aqui [som de choro]… mas, então, eu vi as noticias, e todas aquelas pichações. E eu tive de vir aqui, por eles…

Bob Thornton

Usuário de cocaína, punguista e acusado de homicídio.

Em gravação para a polícia de Chicago.

Pelas ruas o pânico tomou conta das pessoas, o caos ocorre por todo o lado, como nunca antes visto. Alguns dizem que é o apocalipse, que o fim está próximo. O governo declarou estado de emergência por todo o estado de Nevada.

Apenas as luzes de lampiões continuam acesas por aqui neste momento. É inacreditável. Todas as pessoas decidiram sair de suas casas para presenciar. As luzes agora tomam conta do céu. O dia nasce hoje a meia noite… Oh Meu Deus… O que… [estrondo].

Joshua Lee

Jornalista desaparecido durante o incidente Nevada 05.

Nós estamos nos estágios preliminares da maior batalha que a raça humana já presenciou. De diversas maneiras, a maior e última batalha que a raça humana já travou.

Eu digo a todos que neste presente momento nós não temos nada mais a oferecer a vocês do que sangue, suor e lágrimas. Nós temos a nossa frente apenas a escuridão da batalha. A nossa frente muitos meses de luta e sofrimento.

Você se pergunta qual é nosso objetivo? O que nos faz agir em um momento como esse?

Eu posso responder-lhe com apenas uma palavra: Vitória.

Vitória a todo custo. Vitória independente do quão longa ou sofrida seja a estrada que escolhemos para tê-la. Porque sem a vitória, não há sobrevivência.

Hoje, a Iniciativa se faz viva. E para todo o sempre lembrada. Se somos a raça dominante neste planeta moribundo, então devemos mostrar nosso valor, e não sermos apenas vermes se alimentando dos frutos roubados de uma árvore em decadência. Devemos, mais uma vez, fazer por merecer nossas vidas neste lugar sagrado. Devemos, mais uma vez, aprender a olhar as estrelas e não apenas as luzes. Devemos, mais uma vez, sermos humanos e não apenas humanóides.

Se é apenas através de sofrimento que nós, seres humanos, mostramos nosso valor, então, nós vos damos com prazer, o grande sofrimento.

O Projeto Manhattan tem inicio esta noite…. [chiado]

Mr. Orange.

Em comunicado a Nova York, minutos antes do Evento 0.

Por todo o vale [chiado] luzes apagando. Temos uma visão privilegiada e ao mesmo tempo aterrorizante do evento que se desfralda por todo o estado. Há alguns minutos atrás, recebemos noticias de que Washingtom declarara estado de emergência, de que Nova York fora vitimada. Há noticias chegando do outro lado do mundo relatando acontecimentos parecidos.

A chuva cai forte em toda a nossa cidade e conforme as luzes se [chiado] não temos a certeza de que um dia voltarão. [chiado]

Agora posso ver ao longe os clarões que cada vez mais se aproximam de nossas casas. A escuridão toma conta do vale agora. É questão de minutos.

Só posso dizer que agradeço a todos que estiveram comigo durante todo esse tempo. Agradeço aos meus filhos [chiado] a Paula minha esp… [chiado].

Esse foi Steve Wayne, direto de Chicago.

Que Deus abençoe a América, e que tenha misericórdia de nós…[chiado].

“… e eles criaram essa nuvem negra sobre eles que é a guerra.

E quando pingos caem sobre seus ternos eles gritam uns para os outros:

Ei, está chovendo…”

Veja também:

* A Brand New Day.


Eu lembro de ter acordado no meio da noite, com o som dos latidos do meu cão. Resolvi me levantar para ver o que estava acontecendo, e para dar um fim na barulheira. Pus meu roupão e sai para o quintal, e enquanto eu o atravessava, eu vi os primeiros clarões no céu. Como nos filmes de guerra. Grandes clarões que irrompiam por toda a cidade a norte de minha fazenda. O barulho era estarrecedor, e as ondas de choque atingiam meus pés e faziam a terra tremer.

Hal Scott Jordam

Sobrevivente do primeiro incidente.

Houve uma tragédia de grandes proporções. No centro de nossa cidade houveram diversas explosões. Logo seguidas de uma fumaça branca não identificada ainda. O serviço de controle de doenças isolou a área, e mantém todos os que foram expostos pela fumaça em uma tenda improvisada no meio do Square Gardem.

Como noticiado pela Cnn por Ann Lee Rice

Momentos após o incidente Nova York.

 

Eu me lembro claramente de como tudo era antes. De como as cidades eram cheias de vida, cheias de carros. O movimento era constante, o ruído da cidade não parava nunca.

Durante o primeiro incidente, eu estava dentro de um ônibus, voltando de uma aula. Foi então que ouvimos um ruído ensurdecedor, e as janelas do ônibus se fizeram em pedaços. Em seguida as luzes de toda a cidade se apagaram. E não voltaram mais.

Eu voltei para casa andando. Uma longa caminhada de 45 minutos em meio ao mais completo breu. Esperei que a luz voltasse para que pudesse continuar com meus afazeres, mas ela não voltou naquela noite. E nem naquela semana.

Durante o primeiro dia, as rádios noticiavam que ainda não haviam sido identificados os motivos daquele incidente, e nem quanto tempo demoraria para ser corrigida a situação.

Mas então começaram a pipocar boatos de que outras cidades haviam sofrido de acontecimentos parecidos, e cada vez mais o terror aumentava entre as pessoas.

Depois pessoas começaram a morrer aos baldes, sendo identificadas como vítimas de envenenamento. Então o abastecimento da água foi cortado.

O caos se instalou por entre os diversos habitantes da cidade. Lojas era saqueadas, mercados arrombados, pessoas eram espancadas.

Eu permaneci em casa, ouvindo o rádio e prestando atenção nos acontecimentos que agora haviam se tornado globais. Então o rádio também parou de funcionar, e a única coisa que podia se ouvir era o som do chiado que saía pelos alto falantes.

Uma semana depois do primeiro acontecimento, eu lembro de acordar no meio da noite. Nosso gerador finalmente havia se entregado e o ar-condicionado havia parado. Eu notei então uma leve neblina cobrindo a cidade. Espessa e branca. Como ocorre nos dias de inverno que vão ser muito gelados.

Mas estávamos no meio do verão, e fazia 30º graus.

Na manhã seguinte, o silencio havia tomado conta da cidade.


Hoje ainda não se tem certeza do que causou os incidentes que ocorreram em escala global. Acredita-se que tudo tenha sido obra da assim chamada Iniciativa Mágica. Mas os motivos e objetivos finais dessa iniciativa ainda permanecem obscuros, visto que se tem pouca informação disponível sobre a mesma em qualquer lugar. De fato a única pista que liga os incidentes a tal iniciativa são as diversas pichações e cartazes encontradas pelas cidades que passei, e que só se fizeram notar dias depois.

Creio eu que tenham também sucumbido com a infecção que despejaram no ar das cidades durante aquela noite.

De alguns bilhões, fomos reduzidos a alguns milhares espalhados por aí.

Nada é como era antes. Grande parte da tecnologia e desenvlviento que havíamos acumulado com o passar dos anos foi a baixo em menos de duas semanas.

As cidades jazem em ruínas. Cobertas por espessas camadas de cinzas e ervas daninhas. Os arranha-céus, que antes abrigavam grandes corporações, hoje são somente espinhos negros e semi-mortos, habitados apenas por animais selvagens e fugitivos.

Não existem mais grandes governos, apenas pequenas vilas espalhadas pelos cantos inóspitos e longe da radiação e do vírus. Onde a lei é imposta com força, e onde pessoas como eu são contratadas para caçar os fugitivos.

Somos mais uma vez nossos piores inimigos.

John Smith

Sobrevivente do Ground Zero.

 

“O refúgio que você construiu para evitar
os lugares que você mais tem que temer
é o lugar que você mais tem que temer.”

 


“One must still have chaos in oneself to

Be able to give birth to a dancing star.”

Friedrich Nietzsche, Thus Spoke Zarathustra:

A Book fir All and None

I.

A menor distância entre dois pontos em qualquer cidade sempre foi uma linha reta.

Olhando para a rua do lado na noite serena, há um ponto em seu fim para o qual convergem todos os pontos.

Nós olhávamos para cima e víamos as estrelas, elas nos guiavam e iluminavam, agitavam nossa mente, nossos desejos, nossos sonhos.

Nós aprendemos com elas, e aos poucos fomos nos elevando, nos aproximando cada vez mais do firmamento.

Até o ponto em que ficamos cegos com nosso próprio conhecimento, nos agarramos a uma verdade e a tornamos absoluta. E nós caímos.

Dominamos o cérebro, nos esquecemos da mente.

Dominamos o mundo.

E nos esquecemos das estrelas.

Nos esquecemos do caos.

II.

Agora nós olhamos para cima e vemos novamente as estrelas e elas miram o organismo de concreto e aço, e a lua reflete todas as suas luzes multicoloridas. Os deuses da cidade despertam, e eles evadem a cabeça e tecem teias, tecem o tempo.

Nós olhamos para frente e vemos as estrelas de néon, e entramos em êxtase quando a cidade geme o primeiro som, e todos acordam para aplaudir a noite.

Agora na metrópole, o melhor caminho já não é a linha reta. Ruas se curvam e distorcem em um imenso redemoinho, estrelas também convergem para um único ponto, o som e a fúria dilaceram a mente, sugada pelo vórtice.

O vórtice é a magia, e meus caros. É o caos.

III.

Eles disseram que as cidades estavam mortas, mas o organismo agora pulsa como nunca.

O caos invade as ruas, as praças e os prédios.

A cidade quer nos revelar algo novo. Os deuses transmitem as informações por dentre as luzes fumegantes, pelos signos de concreto, pelo cheiro do combustível, pelo som ensurdecedor.

A cidade grita.

Vamos ouvi-la.

Post por Tehuti