O Assassino da Meia-Noite.
Meu nome é Jonas Smith, e eu sou um assassino.
Sim, como eu disse, eu sou um assassino, mas uma vez eu já tive família, tive filhos. A vida não parece ser justa com todo mundo, nem todos tem o direito de serem felizes. Minha teoria é a seguinte: Quando Deus criou a terra, ele deu aos seus filhos a dádiva de ser feliz. Só que como em tudo, deve sempre haver certo equilíbrio, então, para que algumas pessoas fossem felizes, outras deveriam ser miseráveis. Justiça divina eu chamo isso. Minha justiça.
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Hoje é sexta-feira, uma maldita sexta feira, a chuva cai torrencialmente em New York, tive de vedar as minhas janelas, pois neste imundo quarto, nem da chuva eu estou protegido, a cidade que nunca dorme dizem os turistas, uma bela cidade, uma cidade fedorenta, cheia de pessoas que preferem te dar um chute, ao estender a mão para ajudar a lhe levantar, aqui sim é a selva, e o cheiro, oh o cheiro, digno de uma província inglesa do sec. XVII. A chuva trás do fundo dos bueiros aquele cheiro de esgoto, aquele cheiro acido, misturado a algo mais, algo indefinível. È verdade que a cidade não dorme, mas o pior não é a cidade que não dorme, mas sim, o que acorda ao entardecer, o que se levanta quando as sombras se deitam.
Eu sou Alex Sanders, e eu sou um vampiro.
Bem, se é assim mesmo que eu posso me chamar, não é nada tão glamoroso como o livro de “Bran Stoker”, mas ao menos eu posso comer alho. È um mundo mais difícil do que o comum, não há amigos, não há segurança, não há amor, a única coisa que há neste mundo, é desconfiança, a traição e o horror visto a cada noite nos olhos das vitimas. Eu não tive muito tempo para aprender nada sobre este mundo, meu senhor me abandonou, um viciado que deve ter tido uma crise, me atacou quando eu perambulava pelo Bronx, e me “secou”, quando deu por si, deve ter ficado apavorado, e me trouxe então para este pesadelo. Eu acordei horas após, havia corpos de duas mulheres ao meu lado, seus rostos desfigurados, eu estava coberto pelo o sangue de ambas. Foi então que começou o meu pesadelo. Eu sou um pária, um caitiff, um sem clã, destinado a não pertencer a lugar nenhum neste mundo. Mas eu me viro.
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Sexta feira 6 de junho de 1999, Manhattan
A chuva cai pela cidade, o vapor dos bueiros, e passagens de ar sobe alto pelas ruas lotadas de “gado”, o prédio parece velho, um espinho remanescente dos anos setenta, construído com tijolos à vista, deve ter sido belo em sua época, mas nada dura neste mundo, agora jas coberto por pôsteres de bandas, e pichações, como um cobertor, ou uma bandagem, para proteger este velho prédio de cair morto por sobre o enxame de carros e pessoas que passam.
O “velho”, esta do outro lado da rua, parado ao lado de uma cabine telefônica, usa um impermeável de couro marrom que perece já ter enfrentado muitas batalhas, assim como seu usuário. Ele usa também um chapéu de abas largas que esconde seus cabelos grisalhos e a face marcada pelo tempo e pela experiência. Escondem também seus olhos, azuis, como os de um Clint Eastwood em seu auge. Ele observa o apartamento no segundo andar, um moquifo, um esconderijo, uma casa. Levou muito tempo para que decidisse fazê-lo. Ele é um caçador, um assassino, cauteloso, frio, mas assim como o prédio a sua frente, sue tempo já passou, ele se apóia também agora, para que não caia em meio a esta multidão.
Ele já foi o assassino da meia noite, o algoz dos não mortos, é considerado um anátema pelos membros, alguém que se visto deve ser morto, porque se você não o matar, ele com toda certeza irá fazê-lo.
Estima-se que Ele já tenha matado cerca de cem membros, só na América do norte, gente importante, ele não distingue seitas ou clãs, idade ou sexo, para ele, o serviço que faz, é em nome de Deus, ele extermina as crianças de Lúcifer. Mas ao que parece, hoje, ele veio encontrar sua família mais uma vez. Uma ultima vez.
O velho tosse, um lenço cobre sua boca, o velho observa a cor âmbar do sangue que agora jas no pedaço de seda, ele não tem muito tempo. Ele então toma uma decisão, começa vagarosamente e decididamente a andar em direção ao outro lado da rua, e em direção ao velho prédio. Os carros passam zunindo por todos os lados, o homem sabe o que tem de fazer, assim como sempre soube antes, só que desta vez a tarefa vai ser um pouco diferente, ele veio dizer adeus.
O Velho porteiro se assusta com o som da porta de vidro se abrindo, poucas pessoas vêm a este prédio a estas horas, e geralmente os que vêm procuram algum tipo de negócio obscuro, por isso ele observa o senhor que entra pela porta. O homem se move como se estivesse prestes a cair morto ali mesmo. “Em que posso ajudar?”- pergunta o porteiro, o homem o fita por alguns segundos, então por fim responde, ”Eu procuro por uma pessoa, Alex Sanders, você o conhece?”.
…
Enquanto sobe pelas escadas o velho lembra-se de como era seu filho antes de tudo, uma criança, normal como todas as outras, curiosa como todas as outras. Muito tempo se passou desde o dia em que se separaram, o filho havia por duas vezes tentado contatar o pai, mas sem sucesso, o Sr. Smith, não admitia que o seu filho houvesse se tornado um deles, um da raça que ele jurou um dia exterminar. Mas o tempo é o melhor juiz, e hoje, Jonas Smith, bate a porte de Alex Sanders Smith.
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A noite chegou já faz duas horas, a letargia inicial que acomete todos os membros já havia a muito passado, agora o jovem assistia o noticiário sem prestar nenhuma atenção, pensando nos próximos passos da noite, provavelmente iria ir para o Succubus encontrar seus companheiros, e depois iriam “beber” todos juntos, ou iriam simplesmente vagar pela cidade e pelos clubes.
A campainha toca despertando seus sentidos, ele sabe que ninguém vem ao seu refugio, seus colegas não o fazem, cautelosamente ele vai à busca de sua arma, escondida embaixo do travesseiro. Pronto. Ele então se dirige a porta devagar. Ele já ouviu falar de alguns membros violentos que simplesmente invadem os refúgios, destroem quem estiver dentro, matam todos no prédio, para por fim botar ele abaixo.
- Quem é?
-Alex? Sou eu Alex, seu… han…pai.
…
Durante a noite toda os dois conversaram, o Sr Smith se desculpou por não te atendido ao filho durante todo este tempo,
para ele era muito difícil aceitar que seu único filho havia se tornado aquela criatura, mas a aproximação da morte o fez ver que necessitava do filho, assim como todos, no fim há a necessidade de não deixar nada pra trás de que possamos nos arrepender.
A conversa começou tímida entre os dois, mas passada a vergonha inicial, os dois tinham muito a dizer um para o outro.
O filho contou o que acontece na cidade à noite, o que realmente era aquela cidade, contou sobre os companheiros que o aceitaram mesmo ele sendo um caitiff, contou sobre as noites quem que a única coisa que consegue fazer é ficar deitado esperando para ver se a morte vai vir na forma de um membro do sabá, um lobo, um caçador, contou sobre o medo constante, sobre o horror e sobre o sangue que já derramou.
O velho Sr. Smith pegou o filho pelas mãos, olhou nos olhos dele e lhe disse que no fim, tudo vai ficar bem, não importa quem ele seja, disse-lhe que queria ter estado ali antes, para que o filho não tivesse de passar por tudo aquilo sozinho. Contou-lhe sobre suas viagens pelo país, sobre todos os tipos que já havia encontrado, e por todos os lugares que já havia passado. Após anos, pai e filho novamente se viam.
- meu filho, eu espero que você um dia possa me perdoar, por tudo que eu já fiz, por ter renegado você todo este tempo. Eu vivi todos estes anos uma vida solitária, eu cacei todas essas coisas noite após noite, cidade após cidade, e nenhuma recompensa me foi trazida até os braços, sua mãe não foi trazida de volta vida, nem tampouco sua irmã, naquela noite em que elas morreram, eu estava bêbado, como sempre, talvez por isso que eu não consegui fazer nada, eles me procuraram porque eu era da policia naquela época, e havia matado um do grupo deles algumas noites antes, também foi por isso que me fizeram assistir enquanto estupravam e matavam as duas, sua mãe e sua irmã, eram a minha vida, assim como você, no dia em que elas morreram também eu morri, meu coração se tornou negro como a noite que acoberta estes malditos, e eu jurei caçá-los até o fim dos meus dias, todos os que eu encontrei tiveram uma morte terrível em minhas mãos, nada sobrou deles a não ser as cinzas, o meu ódio alimentou meu coração e me manteve por todos esses anos. Cada nome da cada vampiro que eu matei esta estampado em meu corpo, para me lembrar de cada noite que eu passei acordado, para exterminar aqueles que tiram as vidas das pessoas que eu amo. Então você se tornou um deles, e mais uma vez meu coração foi tomado pela angustia, e então eu matei mais e, mais, mas agora eu estou aqui, com você meu filho, as portas da morte já se abrem pra min., e eu perdi tanto tempo atrás dessas coisas, obcecado por matá-las, que eu perdi a oportunidade de criá-lo, de vê-lo crescer, por mais uma vez eu falhei, se eu estivesse aqui…
As lagrimas tomam o rosto do velho homem, mais do que nunca o sofrimento fica estampado em seu rosto, os olhos falham, assim como suas palavras
-Eu… eu sinto muito meu filho, eu espero que você possa me perdoar, e que Deus também o faça.
O velho estremece, começa a tossir, a mão cobre a sua boca, como a água do rio que passa pelas pedras, o sangue também encontra o seu caminho através dos dedos do velho, as gotas caem no chão, pintando de carmim o assoalho de madeira escura.
O jovem observa o velho lentamente perder o brilho nos olhos, os olhos que um dia foram ternos e calorosos agora só exibem angustia e pesar. Porque tem de ser assim ele pensa, porque não podíamos ser apenas uma família normal, jantar juntos, brigar por besteiras, porque o mundo tinha de ser tão imundo ao ponto de um filho perder o pai desta maneira. Súbito o jovem tem uma idéia, ele tem o poder de trazer o pai de volta a vida, e os dois então podem recomeçar longe daquele lugar imundo, em algum lugar tranqüilo, recuperar o tempo perdido, ser feliz mais uma vez, como antes.
Ele já ouviu falar de como se cria um membro, mas na prática parece ser muito mais difícil, ele se aproxima da jugular de seu velho pai, crava as presas em seu pescoço, o vitae jorra ainda quente para dentro de seu esôfago, ele sabe que não tem muito tempo para terminar o processo. Após tomar todo o sangue ele então morde seu próprio braço, e deixa o vitae escorrer para a boca de seu pai, por alguns segundos tudo fica em silêncio, pois ele sabe que deve deixar o pai beber até ficar consciente, se não o fizer a besta tomará conta do velho, assim como tomou conta dele quando foi criado.
Ele agora pode ver um futuro à frente, a família reunida finalmente, após todos estes anos, se apenas ele tivesse o poder de trazer de volta sua mão e irmã. Mas seu pai não se mexe, nem um centímetro, apesar de ter feito tudo de acordo com o que lhe foi ensinado o velho não se move, ele se debruça para ver se nota alguma mudança, é então que é pego de surpresa, a estaca atravessa o seu coração, a dor é lancinante, seus olhos não acreditam no que vê, o velho Sr. Smith se levanta, um sorriso no rosto, os olhos azuis mais uma vez com o fogo da vingança divina renovada. Ele observa Alex com uma expressão de desprezo. Onde antes havi amor, agora há apenas indiferença, ódio. O caçador começa a andar para longe do montro. Tempo não é mais um problema…
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Enquanto caminha para o outro lado da rua, ele observa enquanto as chamas começam a subir pelo segundo andar, observa quando a multidão nota as chamas e entra em pânico, quando os residentes fogem do local agora coberto por um cobertor de fogo, vê quando os primeiros caminhões de bombeiros chegam ao local, e começam a lutar contra o fogo, ele permanece no local durante mais algumas horas, pois sabe como essas criaturas são resistentes. Então calmamente Jonas Smith, “O Assassino Da Meia-Noite”, caminha em direção ao centro da cidade.
Nas semanas que se seguiram sua agenda estava cheia.
Livre reinterpretação do conto, “O Assassino da Meia-noite”.