Gnosis, ou gnose é conhecimento. Literalmente. Mas conhecimento de certa forma é apensa a substituição de erros bizarros, por erros menos execráveis. A um século todo mundo sabia que a terra era quadrada. Hoje todo mundo sabe que a Terra não é quadrada, como também não é o centro do universo. Mas o fato é que a Terra era plana a alguns séculos. De certa forma não podem existir verdades imutáveis em um mundo completamente mutável. Hoje sabemos que existem 3 dimensões conhecidas. Altura, largura, profundidade. Mas esse conhecimento já existe a centenas de anos. Já se diz que a quarta dimensão é o tempo. A muitos anos se acreditava que a Terra, e o universo teriam sido feitos em 7 dias, e que todos os seres teriam sido criados magicamente do nada. Hoje é aceito que todos os seres descendem de um pool de genes primordiais, e que o homem, através de diversificações aleatórias e seleção natural tem um parentesco símio. Mas quem pode afirmar que esse conhecimento não é apenas nossa realidade atual?

A metafísica afirma que todos somos um. Apenas aspectos diferentes de uma só vida. Sombras na caverna de Platão. Há quem possa afirmar empiricamente que tal afirmação é falsa. E se for falsa, será falsa por toda eternidade ou apenas por algum período de tempo? Talvez algumas verdades, sejam apenas interpretações finitas de algo infinitamente maior.

Se a natureza é formada apenas das coisas que conhecemos, verdades momentâneas e finitas. Sendo a realidade em si algo muito superior e infinito não existe realmente algo que não possa existir.

“Nada é verdadeiro, tudo é permitido”

Quais verdades fundamentais vão ser destruídas pelo futuro,depois dos comerciais?

De forma alguma eu estou tomando esta reflexão como uma cisma contra minhas crenças e visões atuais da minha própria realidade. Mas sim é tentativa, mais uma vez de reflexão de que o que nesse momento é impossível e impensável pode não ser dentro de alguns séculos, ou anos, ou meses…

(…)Para um garoto que nasceu no subúrbio, escuta funk e faz parte de uma gangue, a realidade é diferente da de um homem que viveu sempre num abastado berço? Então, a realidade é diferente para cada uma das pessoas em cada canto do planeta?
Talvez apenas a percepção de realidade desse individuo seja diferente. Assim como a minha é diferente da sua. Então algumas das verdades do mundo não são realmente externas, mas sim internas. Afinal a Terra nunca foi quadrada, apenas as percepção da realidade da época levava as pessoas a assumirem essa hipótese como uma verdade fundamental.
Nossos olhos, enquanto receptores de informação, alteram a realidade enquanto ela é transmitida.

alanmoore

Cão, verme, blasfemador, adultero?

Fui chamado de todas essas coisa por vós, homens de boa fé, cristãos, quadrados provincianos e de mente pequena. Fui chamado assim, insultado por vossa inteligência e raciocínio falho.

E porque?

Por ter entrado furtivamente em seus quartos quando vocês saiam e ter satisfeito suas mulheres por toda a vida em apenas uma noite? Por tê-las feito gemer meu nome a seus ouvidos enquanto tentavam esquecer que eram vós em seus braços e não eu? Por ter acariciado cada seio, cada curva, como se nada mais importasse no mundo? Por tê-las feito tremer ao meu toque? Por ter exaurido suas forças? Por ter as tornado também adulteras sobre minhas mãos e falo?

Por isso?

Se é assim, de bom grado eu entrego minha cabeça a vós homens de boa índole. Pois sei eu qual nome será lembrado nas noites frias deste inferno branco que chamam de cidade, e minha alma se conforta no calor das pernas e no ardor dos lábios de suas senhoras para sempre em minha lembrança.

Uma vida inteira eu as amei em uma noite. Vocês podem dizer o mesmo?

- Você tinha que fazer isso? Eu te amei desde o dia em que te vi, e eu te disse isso seu canalha!!!

-Eu fui tudo o que um cara espera de uma garota, fui sua amiga, sua companheira, sua amante, mas mesmo assim você tinha que fazê-lo.O que mais você queria de mim? O que eu fiz de errado?

-Eu não acredito. Todo esse tempo, eu devia saber. A sua mãe bem que me avisou. Sua mãe, sua própria mãe tentou me avisar e isso devia significar alguma coisa, mas não, eu preferi acreditar que ambos estivéssemos começando do zero depois de tudo o que fizemos. Eu estava, e achei que você estava. Mas você é um mentiroso, sempre foi um bom mentiroso, so que eu achei que comigo ia ser diferente…

- Eu fui sua, só sua em todo esse tempo. Mas depois de tudo, tudo, de todo o esforço eu descubro o quanto você não era somente meu, mas de todo o resto do planeta. Três anos sendo enganada por você, achando que você era tudo aquilo que eu achava que para mim não existia. Eu que não acreditava em nada, acabei acreditando na única pessoa em quem não se podia confiar.

-Seu filho da pu#@. Eu te amo seu miserável e você me retribui assim? Seu monte de merda, eu devia ter te traído até por debaixo da língua. Por que é isso que pessoas que nem você merecem não é mesmo? Eu não te dei o direito de me machucar seu filho da mãe!!!!

- Você não vai falar nada seu cretino?

- …amor, olha me descul…

- CALA A BOCA E ENTRA NO BURACO!!!!!

Ele se entrou, eu peguei a pá.

Os homens que adentraram aquela velha casa de uma secular família do interior do condado de New Haven jamais poderiam imaginar o choque e aversão sobre-humana que encontrariam ali.

Sabiam que estavam atrás de um senhor outrora conhecido por seus estudos teológicos para a universidade local e pelas grandes doações fornecidas por sua família a famílias locais desprovidas de sustento ou em situações menos auspiciosas, mas que agora era temidamente associado a diversos boatos sobre tortura e assassinato ocorridos por todo o território americano.

Havia ele torturado e matado ao menos três pessoas no ultimo ano, e isso fora apenas o que se conseguiu confirmar ao serem encontradas partes de corpos medonhamente disformes. Um homem em um prédio em construção próximo a 5th Avenue, que fora encontrado semi mutilado, sem pés e sem mãos, parcialmente coberto pelo teto do local que de alguma forma havia cedido. Uma atriz encontrada sem a face em um teatro local após uma apresentação. E um homem encontrado semi devorado por ratos em um restaurante de uma famosa franquia.

As investigações se seguiram durante vários meses. Até que no dia 31 de outubro a policia local decidiu invadir o local, após alguns vizinhos da pequena mansão terem reclamado de alguns sons estranhos vindos de dentro de propriedade que estava anteriormente entregue apenas as baratas.

A polícia chegou por volta das 10 horas da noite em quatro viaturas policiais com agentes fortemente armados e protegidos. E desde o momento em que puseram os pés para fora das viaturas naquela estreita rua arborizada, sentiram o estalar das arvores e os sons do vento como um mal augúrio que pairava sobre aquela propriedade.

Era como se o os sons da noite fossem atribuídos de um ritmo, um som gutural apenas lembrado em histórias antigas passadas de geração em geração, que agora estavam tão desaparecidas, ou até mesmo escondidas quanto seus próprios criadores.

Todas as luzes do local estavam desligadas com exceção de uma bruxuleante luz violeta que vinha de uma das janelas do segundo andar, onde dizem, era o quarto de dormir dos pais do suspeito. Onde teriam eles sucumbido à loucura e se matado.

Conforme avançavam para dentro da casa, cada vez mais o espírito dos homens parecia ser consumido pelo ambiente e pela escuridão que permeava o local. E, conforme a casa era vasculhada, percebiam cada vez mais uma presença latente e invisível que parecia vigiar a todos que ali estavam a macular a residência.

As atenções então se voltaram para os fundos da casa, onde parecia haver um pequeno labirinto arbóreo tão antigo quanto à própria propriedade, mas que agora jazia coberto por um manto do que parecia ser uma vegetação negra e visguenta saída de um pesadelo mortífero de alguma cidade onírica dos abismos mais terríveis.

Um dos lados do labirinto havia ruído, revelando ele algum tipo de luz que vinha de seu interior, e algum tipo de canto indescritível que parecia sair da boca de um animal em transe orgástico.

O destacamento policial avançava com cautela por entre as proteções do labirinto e em meio à cobertura que a escuridão lhes proporcionava em direção à abertura lateral. E conforme os homens continuavam a percepção do que era realmente feita a cobertura do labirinto fez com que muitos recuassem, alguns caíssem no mais profundo e angustiante choro, e alguns outros entrassem no mais profundo choque, seguido de um pânico que os fez desfalecer em meio aos arbustos.

Por entre a formação arbórea e visguenta, sobre as cabeças dos oficias encontrava-se uma manta rubra indefinível de órgãos, cabelos, e pele seca humana de muitos dias, talvez até mesmo anos de existência, e sabe-se lá, morte.

O avanço da tropa continuou até a beirada do labirinto ruído, onde puderam observar - para seu horror – que os gritos animais vinham do homem que se auto intitulava o Devorador, e que dançava e cantava freneticamente em alguma língua indistinguível, alterando seus movimentos entre dois círculos suspensos no ar. O mais interior era um de fogo, onde em seu centro se encontrava uma grande e polida pedra de mármore branca banhada em algum liquido pardo seco, e o mais exterior era formado de partes humanas, e corpos das vitimas, sete delas para ser mais exato.

O choque fez com que os policiais ficassem paralisados observando aquele homem que mais parecia um animal entre seus espólios de guerra por assim dizer. Mas o choque durou pouco, e o dever policial foi mais forte. Eles então avançaram para cima do assassino, e deram-lhe voz de prisão.

O homem ensandecido uivou a vista dos homens e avançou em sua direção empunhando um punhal de aparência grotesca. Avisos foram dados, assim como gritos, e balas zuniram pela noite.

O animal acuado estripou dois policias como se suas peles fossem de manteiga antes que os projéteis, como relâmpagos o fizessem vergar para trás e cair de costas no chão.

Os homens então entraram naquele círculo macabro e ouviram os últimos balbucios audíveis da temível criatura e sua risada gorgolejante.

- …ack… em sua morada em R’yleh o morto Cthulhu espera sonhando…e eu seu enviado, irei devorar a parte do homem que cabe a meu mestre, pois assim como em toda a Terra, há o Sol e a Sombra, há também no homem uma parte de meu deus ancestral, e de seus pecados eu sou o portador imor…

Uma bala no peito fez com que o homem parasse seu discurso, mas outras três lhe foram necessárias antes que esse parasse de rir.

E até hoje, daqueles que tiveram o infortúnio de adentrar aquele domínio maldito, há os que dizem terem ouvido o som de passos pesados vindos de dentro daquele labirinto, e o som gorgolejante de uma respiração profunda.

O corpo do homem fora levado para o IML local, mas jamais fora verificado, pois no incêndio que derrubou metade do bairro, o prédio também fora vitimado.

Hoje, somente eu resto dos sobreviventes daquela expedição. Algumas semanas atrás o agente Jenkins fora encontrado pendurado pelo pescoço no lustre de um motel barato.

Este relato, assim como o relato de todas as outras mortes que me foram entregues posteriormente à caçada estarão em minha escrivaninha pessoal, assim como meu testamento.

Barry Allen Richards

Tenente do 3° distrito de New Haven

Sentada ela observava horrorizada a tela da televisão. Não poderia acreditar no que estava vendo. O que significava aquilo tudo. Quem tinha a ganhar com uma coisa como aquela. E como ela não notou nada de estranho.

Suas mãos tremiam diante do perigo que aquelas imagens significavam se fossem levadas a um tribunal. Ninguém suspeitava que ela, uma doce dama da alta sociedade, pudesse ter feito uma coisa daquelas. E com o próprio marido.

Desligou o televisor então. Atirando com fúria o controle remoto contra a parede e jogando no chão o aparelho de DVD, que se fez em alguns pedaços.

Observava agora os itens que haviam vindo junto com o DVD. Uma caixa de 2 metros de altura, por 1,5 de largura, de madeira lacrada e fortemente presa. E também uma faca de caça, enorme e aparentemente usada, por causa das marcas negras em sua lâmina e pelo desgaste do cabo.

Tentara abrir a caixa antes, sem sucesso. Então foi que ligou o DVD e assistiu ao conteúdo que a deixou quase em torpor.

Agora permanecia parada em frente à grande caixa, ponderando o que poderia ser feito, como poderia impedir esse DVD de chegar às mãos de mais pessoas. Talvez fosse apenas um chantagista atrás de dinheiro. E ela o daria. Isso e um pouco mais. E haveria o troco, em algum momento.

Ouviu então o momento em que a vidraça da janela a seu lado se quebrou, deixando entrar uma pequena bola de metal de cor escura. Durante alguns segundos, ela permanecera imóvel. Somente quando a granada começou a soltar gás lacrimogêneo foi que ela começou a correr para fora da sala.

Chegando ao corredor, olhou para trás. Notou uma forma escura assomando para cima da janela e espatifando o resto que havia sobrado da mesma.

Começou a correr para a escadaria do segundo andar em busca da porta que dá acesso ao escritório e à biblioteca de seu falecido marido. Entrou e imediatamente fechou a porta atrás de si.

A sala era aconchegante, lotada de livros de economia e direito por todos os lados. Uma lareira crepitava acesa à direita, enquanto à esquerda notava-se uma grande escrivaninha de carvalho negro.

Da sala podiam-se ver aos lados e abaixo a enorme biblioteca, que também servia como salão de troféus. A sacada do escritório dava acesso direto para essa para área adjacente, onde ficavam enormes prateleiras fixadas na parede, que compunham o segundo andar da biblioteca.

Correu em direção ao telefone para poder chamar sua segurança, mas notou apenas o silêncio que vinha da linha. A internet também não funcionava. Tampouco havia lembrado-se de pegar o celular no momento em que a vidraça se espatifou.

Notou o som de passos vindo pelas escadas e ficou imóvel observando a maçaneta da porta, calculando os passos de seu atacante, a espera de seu próximo movimento.

Lembrou-se do estande de armas que seu marido guardava no andar de baixo da biblioteca, e então se voltou para correr. Foi quando notou, do outro lado da sala, em mesmo nível que ela, um homem alto, de chapéu e com uma máscara de oxigênio no rosto. Usava um impermeável de couro negro totalmente surrado. E estava parado observando-lhe.

No momento em que ela fez menção de se mover em direção à escada que dá para a biblioteca, ele começou a correr em sua direção pela área da lateral do “mezanino”. Corria em uma velocidade incrível, mas não o bastante para conseguir pegá-la antes que já houvesse descido.

Ela agora corria em direção a um grande estande de armas de época, que ficava logo atrás de enormes prateleiras da biblioteca. Chegando ao local, notou que todas as armas estavam dentro de um grande armário, protegido por um espesso vidro fumê.

Esmurrou o vidro como quem estivesse zangada não com ele, mas consigo mesma.

Observou em volta, buscando algo que pudesse ser usado como arma de combate. Haviam por lá algumas facas e réplicas de espadas orientais, além de alguns tipos de lanças vindas da África.

Pegou uma pequena espada leve que encontrou repousando na bainha de um manequim samurai. E se pôs a andar cautelosamente, a procura de algum movimento que denunciasse seu perseguidor.

Postou-se ao lado de uma grande prateleira de livros e ficou a ouvir.

Notou o barulho de botas, calmamente andando na direção do estande, e então começou a fazer a volta por onde sabia que sairia atrás do homem mascarado.

Cautelosa e metodicamente ela foi. Passo a passo, centímetro por centímetro, até chegar a ver as costas do homem, alguns metros a sua frente.

Então ela começou a correr, empunhando a espada na direção do homem, para desferir-lhe um ataque mortal, mirando seu crânio.

Mas ele se virou. E ela notou em suas mãos uma pistola calibre 45, a mesma que ela e seu amante haviam utilizado no fatídico dia.

Ela sentiu então a dor e o sangue invadindo seu corpo. Cambaleou e caiu para frente. Não sentia mais o pé direito, apenas notava o sangue jorrando por onde a bala havia trespassado-lhe o tornozelo. A espada caira a alguns metros. E a chance de sobreviver, agora começava a diminuir. Tentou se apoiar em uma perna para se levantar, mas a dor fez com que desistisse da idéia no momento em que sentiu que iria desmaiar.

Ele então calmamente começou a andar em sua direção. E, com um sorriso no rosto, começou:

– Não queremos que você desmaie, queremos? Você perderia o mais interessante de nossa festinha. A parte em que eu faço com que você assista a mim, tirando as suas tripas, conforme você entra em choque, para depois não sentir mais nada, além do torpor que precede a morte.

Ele se aproximou mais e a pegou pela perna que havia tomado o tiro. Começou a arrastá-la em direção a porta que dava novamente a um corredor do primeiro andar e depois ao cômodo onde a bomba de gás havia explodido.

Ela começou a gritar no momento em que ele a tocou, pois a dor que sentia era excrucitante. A perna latejava e o sangue escorria por todo o lado. Seus olhos se enchiam de lágrimas e sua cabeça de ódio.

Foi então que ela notou um atiçador de lareira, próximo a porta da biblioteca. E no momento em que o homem passava arrastando-a pela porta, ela segurou em suas mãos o instrumento. Desferiu com fúria um golpe bem no meio das costas de seu algoz.

Ele vergou para frente, e imediatamente ela se arrependeu de tal ato, pois com um urro gutural, ele saltou em cima de seu corpo no chão, atirando o atiçador para um canto qualquer, e começou a desferir-lhe golpes diretos na cabeça. Em menos de um minuto, ela não enxergava mais nada. Apenas a escuridão tomava conta de seu corpo.

Acordou com um grito, saído de sua própria garganta, pois sentia o ferro quente a queimar-lhe a perna. Observou com lágrimas nos olhos, o momento em que o atiçador vermelho, por ter sido esquentado na lareira próxima, se afastava de seu tornozelo.

O homem jogou mais uma vez o instrumento para longe e se sentou em uma poltrona próxima a ela. Calmo como um psiquiatra, com a diferença de que uma grande pistola jazia em eu colo, brilhante e mortal.

- Eu não podia deixar você morrer por perdas de sangue. Qual seria o objetivo de fazer isso? – Disse ele.

- Objetivo? Você é louco por acaso? O que você quer de mim? Você veio me chantagear? Matar? O que você quer?

- Eu só quero que você me dê o endereço de seu namoradinho para que eu possa fazer-lhe uma visitinha após eu sair daqui. Pois assim como você, ele também está metido nisso até o pescoço.

- Quem é você? Você foi enviado pela família do Edward? É isso? Eu sabia que aquela vadia não estava acreditando.

- Não, eu não sou da família dele. E tampouco conheço essa que você chama de vadia. Mas como eu disse: o endereço de seu namorado, por favor. Ou você já fez com ele o mesmo que fez com o seu marido? Ah, desculpe. Ex-marido. Pois creio que pessoas falecidas não contam muito bem como cônjuges ativos, não é mesmo?

- Seu… – ela sentiu a dor voltar mais uma vez, como uma rubra onda que invadiu todo o seu corpo, e a fez quase perder os sentidos.

- Eu não tenho… Nenhum namorado, seu monte de merda.

- Nunca é uma boa estratégia tentar tirar do sério um homem como eu. Pois sabe como é, nós não temos muita paciência… Ou pena. E eu acho que você não necessita das pernas para me falar nada, não é mesmo? Ou seja, eu posso removê-las se eu quiser.

- Eu sei que você tem um namorado. Sei até mesmo o nome dele, ao menos o nome que ele deu a você. Sei também que vocês dois mataram o seu marido para que você pudesse ficar com toda a fortuna que ele arrecadou com todos os anos de trabalho duro. E sei que você não quer morrer nas mãos de um psicopata. É só me dar o endereço que eu vou para lá estripá-lo.

Ela o observou durante alguns segundos, tentando decifrar o rosto do homem que agora a ameaçava com uma faca. Não conseguiu ver nada. Talvez pela dor que sentia, talvez pela perda de sangue, ou talvez porque não tivesse conhecido ninguém tão perverso e insano nesse mundo. Alguém que ela não podia analisar.

- Você… Vai me deixar sobreviver…? Você só quer matá-lo? Não a mim?

Ele sorriu para ela por alguns instantes e se sentou novamente na poltrona, cruzando as pernas e acendendo um cigarro. Estava quase satisfeito.

- Sim, eu vou matar apenas ele. Eu prometo que, se você me entregar o local onde ele mora, apenas ele sairá morto essa noite.

- Eu… Eu… Se eu contar, como eu saberei que você não vai me matar? Você pode muito bem simplesmente me dar um tiro logo depois… – Ele sacou a arma, retirou o pente, entregou-o nas mãos dela, e puxou o cano da arma, fazendo com que a bala na agulha saltasse para fora do tambor. Puxou a faca de caça e a entregou também a ela.

Ela ponderou se não poderia fazer nada com as armas que agora possuía. Mas sabia no fundo que, contra alguém assim, esse tipo de coisa não faria muito efeito. E no estado em que estava não poderia tentar nada.

- Ora vamos, eu sei que você provavelmente já havia mandado matá-lo mesmo. Você tem muito a ganhar com sua morte também, afinal não terá que dividir o dinheiro com ninguém mais.

- Tu… Tudo bem… Eu conto. Contanto que você o mate de forma rápida.

Ele começou a rir de uma forma muito sombria. Parecia que ele estava zombando dela naquele momento. Viu quando ele se levantou, passou por ela e foi até a grande caixa de madeira. Em seguida puxou a faca que estava cravada na madeira e também um controle do bolso. A caixa então se abriu, mas ela não conseguia ver seu interior. Mas quando ele levantou de lá um grande saco preto e com a faca o cortou na borda, revelando um rosto familiar, ela entendeu o motivo.

O assassino tirou a fita que prendia a boca do homem que estava anteriormente preso dentro da caixa. Seus olhos estavam vermelhos de lágrimas e fúria. Ele não podia acreditar que a mulher que amava, a mulher pela qual ele havia matado, agora descartava a sua vida como se descarta um cão sarnento.

Ela olhava para ele em choque. Então o assassino sabia de tudo: do endereço de Shane, do plano, do dinheiro. E mesmo assim, em um retoque sombrio, a fizera concordar com a morte de seu amante.

Com a faca então, as cordas que prendiam as mãos foram tiradas e o homem se levantou.

- Sua… Sua vadia. Você ia dar meu endereço, minha cabeça a esse homem? Eu não acredito. Eu amei você. Fiz tudo o que você quis. Matei por você. E agora isso…

Ele ignorava o homem que agora circundava ambos, e que apenas observava os acontecimentos, como um jogador que já fez sua jogada.

- Você tinha mandado me matar já, como ele disse?

- Shane… Eu… Eu…- começou a chorar então, e começou a se afastar em direção a poltrona, para longe do amante.

- Fale-me, é verdade ou não?- ele pegou a faca que estava caída no chão- Vamos, me diga, eu quero saber!!!

- Shane, sim é verdade… – ela então pegou a arma que havia sido esquecida pela assassino no sofá, pôs o pente e então deu diversos disparos. Mas não antes que o homem tivesse saltado para cima dela com a faca em punho.

O sangue pintou o chão de vermelho. Ele caiu para o lado, em cima do colo dela, com três tiros certeiros no meio do peito. E ela agora via tudo escurecer devido a lamina que trespassava-lhe o ventre. Sentia o abraço doce da morte e a dor de perder tudo o que havia conquistado em anos, em apenas algumas horas. Seu marido, seu amante, seu dinheiro, sua vida. A ira e o egoísmo, agora nada significavam. De mãos dadas iam em direção a infinita escuridão.

Satisfeito, ele tirou a máscara e sorriu. O trabalho estava quase completo.

Sua cabeça doía, os olhos ardiam. Não sabia onde estava, nunca estivera ali antes. Uma espécie de construção, velha e acabada. Um apartamento quase completamente demolido. A sujeira se acumulava em um canto da sala. Por todas as paredes havia pichações. O assoalho estava em frangalhos, como um velho esqueleto que deixa ver o que há por trás. Assim ele via o andar de baixo. E alguém lá observando-o.

Tentou se levantar. Não conseguiu. Sentiu o peso de uma corrente prendendo seu pé a um antigo aquecedor de ar.

- Ei, você aí. Me dá uma forcinha aqui, amigo? Eu não sei o que tá acontecendo.

Nenhuma resposta. Notou apenas o som de um isqueiro ao acender um cigarro, e a subseqüente fumaça que saía da boca do homem no andar de baixo.

- Ei, espertão, você é surdo ou o que? Me dá uma força, porra!!

Tentou puxar a perna com força, e sentiu uma dor terrível. Junto à corrente, também havia uma espécie de coroa de espinhos, e se ele puxasse, ela iria cravar as garras de metal em sua perna.

Vasculhou os bolsos em busca do celular. Nada. Seu canivete. Também não.

- Como você se sente, David? – Perguntou o homem em meio à escuridão – Sente-se confortável ou esse tipo de ambiente não é o seu habitat natural?

- Como é? Seu monte de merda, o que você quer de mim, han? Dinheiro, é? Pois eu te digo, eu não vou te dar nada. Você que se dane.

- Se eu quisesse dinheiro, eu já o teria nesse momento. Mas me diga, você tem ido a muitos funerais nos últimos dias? Talvez alguns dos seus amiguinhos tenham morrido em acidentes. Talvez carros que ficaram sem freio, bocas de fogão que ficaram abertas?

Ele não tinha palavras. O que era tudo aquilo? Com aquele homem poderia saber dessas coisas?

- O quê…?

- Ora, vamos. Não cagueje. Você não faz isso quando esta falando com garotinhas de quinze anos, não é?

Notou que o homem agora deveria estar subindo as escadas e se dirigindo ao aposento. Ouvia o som de suas botas nos degraus, cada vez mais perto. Ouviu o ranger da porta ao se abrir, e a silhueta enorme do homem ao assomar-se pela sala. Ele trazia agora uma lamparina, que colocou no chão. E ele viu então, a seus pés uma serra de metal. Frágil, mas próxima. E a mais alguns passos, um telefone celular jogado no chão.

O homem se agachou a sua frente e ficou encarando-o durante alguns segundos, para depois apagar o cigarro no assoalho.

Instintivamente, David assumira uma posição quase que fetal no canto da sala. Não sabia o que falar.

- Sem palavras? Mas você é um homem tão articulado, ou será que não? Você me parecia tão versátil ao me mandar aqueles e-mails sedutores han? Entretanto, eu acho que não posso culpar você e sua geração, não é? Vocês todos são assim. Pessoas de teoria. Pensamentos e não ações.

- Mas, me diga. Porque você não fez nada para impedir que eu matasse todos os seus amigos? Será que as pistas que eu te dei não foram suficientes? Nem a polícia você avisou. Por quê? Diga-me, vamos, eu quero saber.

- Ah claro, porque a morte deles lhe servia, afinal, se eles morressem quem ficaria com suas partes da empresa seria você e não os familiares, não é? Mas isso não é um tanto cruel, han? Deixá-los serem mortos feito cães quando você poderia ter feito alguma coisa? Você não passa de um animal. Um monstro.

- Foi por isso que você deixou sua irmã morrer também? Ou foi porque era muito difícil tentar salva-la? Você sabe muito bem que não foi a bebida que te fez ficar parado. Você poderia muito bem ter nadado para ajudá-la, salvá-la. Mas, mais uma vez você preferiu ficar parado e não fazer nada. O medo lhe paralisou dessa vez, foi isso?

- E quanto ao livro que você estava escrevendo? Sabe, eu li um pouco e achei muito bom. Você teria futuro nisso. Mas, porque você não continuou, porque você recusou a ajuda para a publicação? Mais uma oportunidade perdida? Essa a sua resposta?

- Para cada uma das minhas perguntas, para cada um dos seus erros, você sempre vai ter uma desculpa parecida, não é? Sempre uma bengala.

Ele olhava atônito para o homem a sua frente. Sua boca estava seca e suas mãos tremiam. Em sua perna, os cravos começavam a apertar. Sentiu uma pequena tontura acometê-lo e logo sentia subir por sua garganta um jorro de vômito, que sujou todo o chão a sua frente. Começou a chorar.

- Por favor, não me mate, cara. Por favor. Eu tenho mulher e filhos. Não faz isso. Eu juro que vai ser diferente… eu… – o homem a sua frente o olhava com atenção e paciência. Sentou-se no chão, como um velho amigo.

- Ah, Linda. É o nome de sua esposa, não é? E seu filho também é um belo garoto. Ela está numa festa agora, não é? Para o lançamento de algum produto. Festa na qual você também deveria estar. Nós vamos fazer o seguinte. Hoje, eu vou te dar mais uma chance. Uma chance de mudar. Você já viu Mad Max?

- O que? Seu lunático, o que isso tem a ver?

- Hum, parece que não, afinal. Um bom filme. Você está vendo essa serra a sua frente. Pois bem. Você tem vinte minutos para aprender a usá-la. E é bom que aprenda, pois ao término desse tempo esse prédio será implodido. Está vendo?

Olhou então a sua volta, para onde apontava agora a luz da lamparina. Viu algumas bananas de dinamite empilhadas em um canto e um fio que levava para o andar de baixo, onde devia haver mais.

- E quanto ao telefone, bem. É para você ligar para a sua garota, avisar a ela que um louco psicopata está indo atrás dela para matá-la e que ela deve correr o mais rápido possível para casa para pegar o seu filho e fugir da cidade, caso contrario, este mesmo louco vai fazer uma pequena chacina com os dois.

- Seu monte de merda, que você acha que é para fazer esse tipo de coisa? Seu doente lunático. A mamãe não te deu o peito pra você mamar, foi isso? Ou seu pai te molestava, cara? É por isso que você faz isso com pessoas de bem?

Ele notou um sorriso nos lábio do homem, que sacou uma arma. Uma Mauser 9 mm. E deu dois tiros em sua mão direita. Seus olhos reviraram e ele sentiu que iria desmaiar, mas não conseguiu. Em seguida sentiu um chute em seu rosto. O homem o segurava pelos cabelos. E falava perto de seu rosto.

- Má escolha de palavras, garotão. Agora, a dificuldade acaba de aumentar.

Observou o homem rapidamente sair pela porta e ouviu um baque surdo quando este a trancou com alguma coisa. Sua mão doía e sangrava muito. Tentou alcançar a serra, mas tremia tanto e estava tão machucado que não conseguiu se mover da primeira vez. Sua cabeça começava a doer. A tontura voltou com tudo. Mais uma vez, ele vomitou no chão a seus pés.

Alcançou por fim a serra e de imediato começou a tentar serrar a corrente que o prendia ao aquecedor. Mas, com apenas uma mão, o serviço se tornava impraticável. Após alguns minutos, ele desistiu. Tentou gritar para ver se alguém o ouvia, mas não obteve nenhuma resposta. Nenhuma alma viva para lha socorrer.

O tempo passava e ele não tinha forças, nem coragem para fazer o que sabia que era necessário fazer pela vida de sua esposa e filho. Sentia-se envergonhado.

Ouviu então um barulho vindo do outro canto da sala. Um rádio. Ouviu a voz de seu captor, entrecortada pelo som da interferência.

- Já se passaram quase dez minutos, e pelo que eu vejo você ainda não a avisou. Eu acho, então, que vou ter que tomar uns drinques com ela? E quem sabe, talvez eu a leve até minha casa. Você não se importa, não é? Afinal, estão separados. Qual foi a desculpa dessa vez? Isso antes de ir até a sua e matar sua cria.

Então, novamente o silêncio. E de imediato ele então começou a fazer o que tinha que fazer. Tirou a camiseta, enrolou e pôs na boca. E em seguida sentiu a lâmina fria penetrando em sua carne. Sentiu o sangue quente jorrando por sua perna. E guardou um urro de dor pra si mesmo. Seus olhos quase se fechavam de dor agora, mas ele continuava. Sabia que iria morrer de uma forma ou de outra, mas não queria que o mesmo acontecesse aos que amava. Não dessa vez.

Durante mais que dez minutos, ele serrou a própria carne para poder se libertar das correntes que o prendiam. Então notou novamente o silencio ser quebrado.

- Nada ainda? Hunpf, achei que talvez a iminente eliminação de sua família, iria fazer com que você tomasse vergonha na cara e… – Não ouviu as outras palavras, havia terminado de serrar enquanto o monstro falava e agora, em fúria, se dirigiu até o rádio.

- Seu monte de merda, não se aproxime dela – Foi então até o telefone e começou a discar o numero de sua ex-mulher, numero que há meses não era discado por ele.

- Esse barulho é o de você discando os números do celular dela? – David notou uma risada abafada do outro lado. Ficou estático, enquanto ouvia o resto da mensagem dizendo que o telefone não possuía créditos para finalizar a ligação. Seus olhos cheios de lágrimas começavam a perder a batalha para o sono eterno, vindo da perda de sangue. Ele caiu no chão devido à fraqueza. O sangue escorria pelo chão, saindo de sua mão e de seu pé, recém amputado.

- Seu… verme, miserável. Você… – Não teve forças para continuar, a dor era tão grande agora. As risadas do outro lado aumentaram.

- Diga adeus, David.

Enquanto em um lado da cidade um homem era vencido pelo sono eterno e seu corpo era enterrado sobre toneladas de concreto, em outra parte uma jovem moça era drogada e arrastada para o ninho de um animal ensandecido…

Ela corria e corria. Suas pernas doíam, seus olhos lacrimejavam e seus pulmões ardiam. O teatro agora não mais tinha ninguém. O espetáculo há muito havia terminado, e só haviam ficado ela e seu maquiador. Alex. Mas ele havia sumido de repente e ela só ouvira seu grito em meio às grandes cortinas do anfiteatro. E agora ela corria, e nem sabia por quê. Ouviu sons de passos calmos vindo em sua direção, e fugiu. Seminua, vestida apenas com um roupão rosa, esfarrapado.

Esparsamente ela ouvia ruídos atrás de si. Então parecia que alguém estava em seu encalço, mas ao olhar para trás, não havia ninguém. Seus pés descalços não faziam barulhos sobre o chapo acarpetado do teatro, e assim, ela esperava despistar quem quer que fosse. Correndo muito, até se esconder.

Não sabia realmente porque continuava a correr, não havia realmente visto nada, e provavelmente Alex teria gritado por algum motivo bobo. Como sempre. Mas o frio na espinha que ela sentiu com o grito foi o que a fez sair de seu local. Foi um pânico que tomou conta dela, algo sobrenatural.

Com seus pulmões prestes a explodir, e agora se sentindo um tanto idiota, ela parou por alguns instantes. Ofegava tanto, e tão alto, que até mesmo um surdo conseguiria ouvi-la. Fez uma nota mental de que deveria parar de fumar tanto e de que iria freqüentar a academia, ao menos duas vezes por semana. Escorou-se na parede que dava para os camarotes Vips e ali ficou alguns instantes, ponderando o que faria em seguida.

Notou que as luzes do lugar começaram a oscilar como se estivessem prestes a queimar, como as grandes luzes alógenas dos filmes de terror que sempre fazem isto anunciando um perigo inesperado. Já havia assistido Hellraiser vezes demais para não esboçar um sorriso.

Mas foi então que ela ouviu um som a principio baixo. Parecia metal sendo arrastado ou friccionado contra alguma superfície, seguido do som de passos. Como se alguém estivesse usando uma daquelas grandes botas de cowboy, mas sem as esporas.

Os passos eram calmos e vinham direto em sua direção. Ela ouvia nitidamente tudo, pois não havia mais nenhum som no local, a não ser esse. E agora seu coração estava prestes a sair pela boca. Instintivamente ela se pôs a procurar pela maçaneta da porta do camarote em meio à meia luz que aquela maldita lâmpada proporcionava.

Achou-a finalmente e lentamente a abriu. E fazendo esforço para que nenhum som fosse emitido enquanto fechava a porta, ela entrou.

Realmente esse era o tipo de lugar que ela gostava de freqüentar. Lugares assim sempre a fizeram sentir-se como uma rainha entre mortais. O camarote Vip, realmente era algo. Luxuoso. Grandioso. Fútil, talvez. Mas era o seu lugar, onde se encaixava. Agora estava em farrapos, suava por causa da corrida, sua maquiagem estava borrada e seu cabelo despenteado, mas sabia que alguns minutos de atenção fariam com que ela se tornasse o alvo dos olhares.

E foi so quando ouviu o barulho de alguma coisa sendo passada pela fresta da porta, que se lembrou de que estava sendo amedrontada por algo ou alguém do outro lado da porta.

Ela olhou para a luz oscilante que vinha do corredor e que passava pela fresta, e notou um envelope. Branco. Puro. Cautelosamente foi até porta, se agachou e o tomou em suas mãos.

Ela se perguntava o que era tudo aquilo, o que estava acontecendo, e o por que. Seria um fã seu algum lunático, como o que matara John Lennon? Ou seria só algum dos seguranças querendo vingança por ela ter feito o que fez com ele, e depois tê-lo descartado?

Ela então abriu o envelope e notou uma carta. Mas não conseguia ler nada do que estava escrito devido à escuridão que tomava o lugar. Começou então a procurar a luz, um abajur, algum tipo de coisa que lhe proporcionasse luz suficiente para que lesse a tal carta. E por fim mexendo nos bolsos, ela encontrou um isqueiro.

Não havia se dado conta de que estava ali, junto com a erva que havia comprado para mais tarde. Deixou a erva no lugar e começou a tentar acendê-lo.

Após alguns segundos de frustração, ela por fim conseguiu manter a chama acesa e proporcionando luz suficiente. Notou então que suas mãos estavam manchadas por algo vermelho, mas que não identificava. E foi então que ela ficou estarrecida. Sangue. Era isso. A carta fora escrita com sangue. E fora isso que manchara suas mãos.

Garota, se você pensa que eu vou te matar, você esta coberta de razão.

Porque eu vou mesmo. Eu vou tirar desse rosto toda a alegria, vou fazer com que você grite para mim. E vou por fim expor sua beleza para todas as pessoas, e elas vão finalmente saber do que você realmente é feita. Literalmente.

Você sempre foi uma vadia, ambiciosa e egoísta, e acima de tudo uma narcisista por natureza. Todos sabem dos boatos sobre o que você faz com seus empregados quando eles erram, sobre o que faz com a própria filha.

Voce sempre se achou uma rainha. Achou que com sua beleza ganharia o mundo e os corações de todos. É por isso que hoje eu vou tirar tudo isso de você. Antes que eu comece, você ja vai estar implorando para que eu acabe de uma vez por todas. Mas eu não farei isso. Você vai sentir cada centímetro de dor possível e vai ficar acordada o tempo todo. Pois este é o seu show.

É bom você aproveitar bastante para ler esta carta, porque em seguida, eu vou arrancar estes seus olhinhos azuis.

Alex? Como acha que eu consegui tinta?


O pânico mais uma vez tomou conta de seu corpo e, num ímpeto de desespero, ela foi até a sacada do camarote. Olhou para a cortina próxima. Cortina essa que descia até o chão. E então saltou. Por um breve momento ela sentiu que iria conseguir, mas então suas mãos ao invés de segurarem firme o pano, notaram o quanto ele era liso e sedoso, e então começaram a escorregar em direção ao chão.

Uma queda de 4,5 metros em direção aos assentos.

Enquanto caia ela lembrou-se que essa fora mais uma de uma sucessão de más idéias que tivera em sua carreira. Desde o filme pornô que fizera caseiramente com seu namorado, e que, após uma briga, o mesmo havia liberado na internet, até o ritual que havia feito algumas semanas antes com sua filha. Ela infelizmente havia falecido na noite passada, no hospital. Oficialmente fora uma pneumonia. Oficialmente.

O som dos ossos de sua perna direita se quebrando quando batera nos assentos não fora nada bonito. Lembrava o som de um galho se partindo, só que seguida de uma dor penetrante que a fizera gritar muito alto. Mas ela sabia que não podia ficar por ali. E foi por isso que mesmo com a perna destruída e chorando copiosamente a atriz começou a se arrastar. Agora era um arremedo da garota bela e sexy que fora horas antes, enquanto interpretava uma rainha em sua peça de teatro mais recente. Papel esse que lhe rendera aplausos, prêmios, dinheiro e homens. Mas agora, o que lhe valia tudo isso ela pensava? Seus olhos se fechavam de dor enquanto ela continuava.

Ainda no chão, foi então que ela notou as botas. Em meio às poltronas ela notou-as paradas a alguns metros de si. Ao levantar a cabeça viu então o instrumento que fazia o barulho de fricção. Uma faca de caça. Enorme.

O homem sorriu simpaticamente para ela e começou a se aproximar. Ajoelhou-se ao seu lado e, ignorando seu choro e gritos de “por favor, não”, segurou seu rosto com uma das mãos e com a outra começou lentamente a separar a pele do resto do seu crânio.

Os gritos ecoam pelos corredores escuros e abandonados. O som de água gotejante, devido a infiltrações que inundam o local, com um aspecto de caverna. O limo e a sujeira cobrem todo o lugar, um antigo abrigo antiaéreo datado da segunda guerra mundial, tão esquecido quanto à própria guerra em si. O local parece um labirinto de túneis austeros de concreto com mais de 15 cm de largura. Portas blindadas e isolamento acústico. Ninguém do lado de fora ouve o que realmente acontece por ali.

O homem esta sentado em uma cadeira de metal. Sua postura lembra a de um oficial do exercito. Empertigado, ereto, silencioso. Em sua mão direita ele tem um alicate, de onde algumas gotas de sangue caem em direção ao chão, já bastante imundo, e marcado por mais alguma “reuniões” anteriores. Em sua mão esquerda ele tem uma pequena marreta com ponta de metal.

A sua frente, uma mesa também de metal, exibe alguns instrumentos interessantes. Uma Mauser C-96, 9 mm, algumas peças de xadrez, dispostas sobre um grande tabuleiro de marfim branco e ébano, e uma pequena caixa de metal, cheia de gelo, onde jazem dois dedos recém amputados.

A moça continua a gritar de dor enquanto sente o sangue saindo de mais um dos seus dedos amputados. Dessa vez foi o anelar da mão esquerda. Seus olhos estão cobertos de lágrimas e sua cabeça inundada de pensamentos acerca do motivo de tudo aquilo. Só se lembrava de ter estado em uma festa à fantasia e ter bebido alguma coisa com um jovem rapaz. E depois disso, só a escuridão, até ser acordada por ter seu dedo arrancado com um alicate. Mas não antes de ter o mesmo esmagado pela marreta nas mãos de seu captor.

- Eu sou rica – disse ela, a voz quase em falsete, se esvaindo, quase um esforço titânico a cada palavra que ela cuspia da boca – Meus pais podem pagar tudo pra você, só me deixe ir. Por favor. Eles pagam qualquer quantia de resgate, eu garanto.

- Não.

- Por que!? Porque esta fazendo isso comigo!? O que você quer!?

- Primeiro, eu quero terminar a nossa partida.

Ela olhava atônita para ele. A sua frente estava um louco, um ensandecido homem que a havia escolhido aleatoriamente para torturar e depois matar. Ela chorava copiosamente e tremia, muito, tendo quase convulsões. E se tudo continuasse como estava, em breve ela entraria em choque.

- Sua vez – Disse ele após movimentar o cavalo para a posição D6 – Xeque.

Ela não podia acreditar, ele realmente queria que ela continuasse jogando naquelas condições. Ela começou a se lembra então do filho de dois anos, e dos pais, de quem agora mais uma vez era inquilina. Voltaria ela a abraçá-los mais uma vez, a sentir o perfume das rosas no jardim, a brincar com sua cria?

O rosto impassível do outro lado da mesa somente dava a impressão de que era capaz de qualquer coisa. E ao perceber a inércia dela, a mão com o alicate lentamente começou a se movimentar e direção ao braço esquerdo dela, mais precisamente a sua mão, que estava estendida sobre a mesa, amarrada e ainda sangrando. Ela soube o que ele ia fazer.

- Não, não, pera, pera – E pegou então o bispo branco e movendo-o para a posição do cavalo inimigo, pôde garantir um pouco mais de tempo a si mesma.

Rapidamente as mãos do homem voltaram à posição inicial e ele largou a marreta no chão, pensando no próximo movimento. A moça tremia a sua frente, suava frio, e o olhava com pavor tremendo.

- Pessoas como você garota, sempre pessoas como você que me dão o trabalho. Sempre me fazendo fazer esse tipo de coisa.

- Do que você está falando? Eu não sei do que você esta falando, cara!!!

- Ah, mas você sabe sim. Seu ex-marido. Você o traiu com quem mesmo? Ah com o melhor amigo del,e não é mesmo?

- Você então tá a serviço do Alex? Mas…

- Sua vez – e colocou então a rainha em posição, bem a frente do rei adversário, mas do outro lado do tabuleiro – Xeque.

Ela estava parada atônita. Mas para quem ele trabalhava? Não conhecia ninguém que pudesse ter algo contra ela. Pelo menos, que ainda estivesse vivo. Tremia mais do que nunca, mas o choro havia cessado. Pelo menos agora ela sabia que ele trabalhava para alguém.

- Vamos, não me faça obrigá-la a jogar. Você, mais uma vez, não vai gostar nada.

Ela então pôs a torre branca bloqueando o caminho da rainha negra. E7.

- E depois do caso com o Arthur, quem foi? Ou melhor, quais foram os seguintes? Eu contei sete, quantos você pegou de verdade? Diga-me, eu realmente fiquei curioso.

Ele se apoiou nos cotovelos, e ficou a olhar para ela, como se realmente esperasse uma explicação de sua parte. Mas como ele sabia dessas coisas? Talvez um deles tenha ficado com ciúmes, e voltou querendo vingança. Mas quem? E a quanto tempo ele já estava a observá-la.

- Xeque-mate – Ela ouviu as palavras saindo da boca de seu vilão, com um tom de humor negro muito característico, quase como se ele estivesse gostando dessa situação, assim como ela gostava de jogar golfe, por exemplo.

Sua mão estava sangrando ainda, e sua visão começava a ficar turva. A dor nem mais importava tanto, já havia diminuído um pouco, bastava não mexer muito. Mas logo, com a falta de sangue, ele iria desmaiar se não pior.

– Você perdeu garota – E ele disse isso como se ela realmente tivesse perdido muito mais do que uma simples partida. Ela sabia o que isso significava, mas não queria que tudo acabasse ali mesmo, não agora. Havia recém comprado uma casa aos pés do letreiro de Hollywood, e iria finalmente sair da casa dos pais.

- Seu merda, o que você quer de mim afinal!!??? Pra quem você trabalha, caralho?!

Ele andava pela sala, parecia estar à procura de algo, algo que parecia não estar lá. Procurava na escuridão, em meio a prateleiras lotadas de coisas invisíveis aos olhos cansados da moça. Jogava coisas no chão, mas parecia que realmente o que procurava não estava ali.

- Fique aqui – Disse ele com um sorriso no rosto, e então saiu pela porta para a escuridão do corredor. Ela somente ouvia seus passos se afastando. Então ficou tudo um silencio completo, exceto pelo pinga-pinga das infiltrações. Seus pensamentos já estavam totalmente desfocados, assim como seus olhos, e a mão voltava a doer, assim como sua cabeça. Uma dor lancinante e terrível. Olhou para a caixa a frente, seus dois dedos arrancados jaziam ainda no gelo, talvez pudessem ser colocados de volta no lugar. Era só pagar um bom cirurgião, que tudo daria certo. Só tinha que acertar com esse homem uma maneira de libertá-la. Só isso. Ela o ouviu entrar novamente no recinto, em suas mãos uma serra elétrica, do tipo que os marceneiros usam para cortar pequenas toras de madeira, e seu coração quase parou ao olhar para aquilo. A lamina estava negra, o que indicava que ele já a havia usado antes.

- Espera, eu posso lhe dar qualquer coisa, qualquer uma. Tudo, eu te dou. Eu transo com você, o quanto você quiser, te dou dinheiro, carros, tudo. Mas me deixa sair daqui. Eu não sei pra quem você trabalha, e nem quero saber, eu só quero sobreviver. Por favor – Suas palavras engasgavam com o choro que mais uma vez voltava, assim como a dor, ainda mais forte. Ela gritava xingava, desesperada, enquanto o homem estava ainda parado a sua frente. Agora não mais com uma expressão tão séria, mas entrecortada por um breve sorriso.

– Eu quero ver meu filho, meu pais, todo mundo, por favor, por favor!!!

- Garota, você viveu uma vida de pecados, de luxúria. É por isso que você vai morrer. Se te deixa mais tranqüila, eu não vou matar mais ninguém da sua família no momento. Eles ainda não merecem, mas você sim. Você fez de tudo para destruir as vidas das pessoas ao seu redor, e isso eu não posso tolerar. Você é o tipo de animal, que não pode viver em sociedade, e por isso foi caçada, e agora retirada da convivência do resto da população. Por isso que agora eu vou fazer você gritar tanto, e tão alto, que sue pulmões vão explodir. Vou fazer você sentir tanta dor, e você vai assistir a tudo de camarote, enquanto eu corto pedaço a pedaço do seu corpo, até que por fim sobre só o suficiente para que você ainda esteja consciente o bastante para que sinta os ratos vindo devorá-la. E não se preocupe com o sangue, nós temos o bastante por sorte, eu tenho feito um estoque.

Ela não podia acreditar tudo que ela havia levado anos para ter. Agora seria tudo perdido para ela, tudo, em apenas alguns segundos. Seu rosto estava pálido ainda, as palavras não saiam direito de sua boca, enquanto tentava protestar contra seu algoz. E quando ouviu o barulho da serra sendo ligada, seu pavor aumentou mais ainda. E conforme ele começou a se aproximar, e também a serra, ela começou a balbuciar palavras ininteligíveis, suas últimas palavras, emboladas com lágrimas e sangue…

 

Egito 1990

As areias quentes do deserto queimam os pés cansados, e vento quente machuca a pele queimada pelo sol à pico no céu. À frente o homem em farrapos nota uma caravana de beduínos parada próximo a um poço em uma cidadela a muito abandonada. Quando o notam eles o olham com caras de espanto, como se sua presença fosse um insulto, e logo o brilho das lâminas aparece sobre p céu azul…

Nova York 20 de dezembro de 1999

Assunto: Kaiphas, o mercador.

O homem acorda de seus devaneios, assustado com o som de um cargueiro próximo, um grito alto e grave. Ele olha para o painel do carro, são 10h30 da noite. No rádio toca Led em alguma rádio de sucessos do passado. Seus olhos se fixam no pára-brisa, já semi coberto pela neve que cai serena sobre. Fica observando enquanto os flocos de neve descem lentamente do céu negro, pousando no capô do carro.

Ele olha para o banco ao seu lado. Em cima da poltrona revestida finamente de couro, um objeto que destoa da elegância do resto. Uma pistola Desert Eagle prateada. Embora muito eficaz, ela também é muito grande, e difícil de manusear.

Ele se lembra de Benitto lhe dizendo para trazer a arma, pois as coisas poderiam ficar feias. Ele não gosta desse tipo de negócio, de se arriscar. Mas o comprador pediu especificamente a sua presença nessa noite. Um novo cliente. Pelas informações que receberam, ele parece ser um barão do tráfico colombiano, aliado das F.A.R.C.

Ele ouve então o som de pneus sobre o cascalho que encobre o chão do cais do porto onde se encontra. A neblina espessa faz com que ele force a visão para notar os faróis que agora se aproximam.

Uma caminhonete negra.

O motorista para o carro, e o desliga. Em seguida abre a porta, e calmamente sai andando até a frente, pondo sobre o capô uma maleta escura. No interior da maleta, Kaiphas consegue ver seu pagamento, 5 milhões de dólares. Muito dinheiro. Exatamente por isso que ele não queria estar aqui neste momento, lidando com algum subordinado de um barão do tráfico.

Ele pega a arma, e a põe no bolso esquerdo do impermeável de couro que veste. Pega as chaves do carro, e então desembarca. Sente a tensão no ar. O homem do outro lado, também.

Kaiphas então põe as chaves do carro no capô.

O homem fala com um marcado sotaque africano, para a surpresa de Kaiphas.

- Meu senhor agradece a sua presença, e espera que você aprecie bastante o seu pagamento, e espera que você ainda esteja disponível no futuro para novos negócios.

- Claro que estarei disponível. Seu senhor sabe como me encontrar, então, assim que ele tiver mais alguma exigência ele sabe o que fazer.

O homem sorri e começa a caminhar na direção de Kaiphas, que imita o mesmo movimento. Os dois cruzam brevemente olhares enquanto caminham para efetuar a troca de veículos.

Os olhos do homem estão levemente dilatados, talvez devido ao uso abusivo de drogas, mas a sensação que aquele homem passa o deixou preocupado.

Ao chegar ao capô da caminhonete Kaiphas observa o servo do traficante, que de imediato vai até o porta-malas para verificar a mercadoria.

Ele não fica ali para ver a conclusão da análise, apenas pega a maleta com o dinheiro, entra na caminhonete e se dirige para o escritório de Bennito.

….

 

Ele conduz o carro calmamente saindo da área portuária de NY. A neve continua a cair só que agora um pouco mais forte. Ele observa as estruturas ao seu redor quando para o carro em uma sinaleira. O bairro parece ter sido vítima da recessão que acometeu a cidade na década de 80, pois as casas embora grandes, são agora como que esqueletos que ainda não perderam a carne totalmente. A ruína está por todo o lugar. Pelas esquinas se espalham viciados, traficantes, gangues… o tipo de cliente que em potencial que ele gosta, mas hoje não, hoje ele apensa necessita falar com o italiano para que acertem os próximos passos de sua organização.

Ele é pego de surpresa por uma batida no vidro. Instintivamente ele põe a mão no bolso do casaco. Mas a solta ao notar uma velha mendiga a falar algo do lado de fora do carro. Dinheiro, como todos os outros ela quer. O vidro então é desce, a mulher se aproxima do carro, infestando-o com o cheiro de cinzas de cigarro, misturados com o de lixo e dejetos humanos.

Os olhos dela se fixam nas grandes órbitas negras do egípcio. Ela engasga antes que consiga falar algo. Põe a mão sobre o pescoço, tentando afrouxar o aperto de algum ser invisível. Seus olhos não mais vidrados agora contêm apenas horror, pânico e medo. Suas mãos desesperadamente tentam buscar ajuda em Kaiphas, mas não encontram nenhuma.

Ele apenas sobe o vidro mais uma vez, antes mesmo de notar que o corpo ao lado do seu carro já parou de se debater.

Ele vê então o carrinho de compras que servia de carrocinha de lixo da mendiga, parado na frente do carro. Ele engata a marcha ré, e começa a recuar. È quando nota um ruído, vindo debaixo do capô, algo que não estava ali antes, ele teria notado. Seus músculos se retesam, ele tenta alcançar a maleta que está no banco do carona ao mesmo tempo em que abre a porta. Seus movimentos são felinos, ele agarra a maleta, que se abre deixando um rastro de notas de cem dólares conforme a rapidez sobre humana de Kaiphas o tenta afastar do veículo.

Então ele ouve antes de ver. O som do gatilho metálico, que desencadeia uma reação explosiva. Seus olhos se fecham conforme a explosão o lança em direção ao meio da rua, as chamas lambendo seu corpo, e os destroços voando para todos os lados. A última vê, é o corpo deformado da mendiga caída no chão, e então, apenas a escuridão do asfalto.

Seu corpo cai no chão com um baque surdo. O dinheiro cai como a neve sobre o corpo do egípcio, lenta e suavemente, cobrindo-o…

O Assassino da Meia-Noite.

Meu nome é Jonas Smith, e eu sou um assassino.

Sim, como eu disse, eu sou um assassino, mas uma vez eu já tive família, tive filhos. A vida não parece ser justa com todo mundo, nem todos tem o direito de serem felizes. Minha teoria é a seguinte: Quando Deus criou a terra, ele deu aos seus filhos a dádiva de ser feliz. Só que como em tudo, deve sempre haver certo equilíbrio, então, para que algumas pessoas fossem felizes, outras deveriam ser miseráveis. Justiça divina eu chamo isso. Minha justiça.

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Hoje é sexta-feira, uma maldita sexta feira, a chuva cai torrencialmente em New York, tive de vedar as minhas janelas, pois neste imundo quarto, nem da chuva eu estou protegido, a cidade que nunca dorme dizem os turistas, uma bela cidade, uma cidade fedorenta, cheia de pessoas que preferem te dar um chute, ao estender a mão para ajudar a lhe levantar, aqui sim é a selva, e o cheiro, oh o cheiro, digno de uma província inglesa do sec. XVII. A chuva trás do fundo dos bueiros aquele cheiro de esgoto, aquele cheiro acido, misturado a algo mais, algo indefinível. È verdade que a cidade não dorme, mas o pior não é a cidade que não dorme, mas sim, o que acorda ao entardecer, o que se levanta quando as sombras se deitam.

Eu sou Alex Sanders, e eu sou um vampiro.

Bem, se é assim mesmo que eu posso me chamar, não é nada tão glamoroso como o livro de “Bran Stoker”, mas ao menos eu posso comer alho. È um mundo mais difícil do que o comum, não há amigos, não há segurança, não há amor, a única coisa que há neste mundo, é desconfiança, a traição e o horror visto a cada noite nos olhos das vitimas. Eu não tive muito tempo para aprender nada sobre este mundo, meu senhor me abandonou, um viciado que deve ter tido uma crise, me atacou quando eu perambulava pelo Bronx, e me “secou”, quando deu por si, deve ter ficado apavorado, e me trouxe então para este pesadelo. Eu acordei horas após, havia corpos de duas mulheres ao meu lado, seus rostos desfigurados, eu estava coberto pelo o sangue de ambas. Foi então que começou o meu pesadelo. Eu sou um pária, um caitiff, um sem clã, destinado a não pertencer a lugar nenhum neste mundo. Mas eu me viro.

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Sexta feira 6 de junho de 1999, Manhattan

A chuva cai pela cidade, o vapor dos bueiros, e passagens de ar sobe alto pelas ruas lotadas de “gado”, o prédio parece velho, um espinho remanescente dos anos setenta, construído com tijolos à vista, deve ter sido belo em sua época, mas nada dura neste mundo, agora jas coberto por pôsteres de bandas, e pichações, como um cobertor, ou uma bandagem, para proteger este velho prédio de cair morto por sobre o enxame de carros e pessoas que passam.

O “velho”, esta do outro lado da rua, parado ao lado de uma cabine telefônica, usa um impermeável de couro marrom que perece já ter enfrentado muitas batalhas, assim como seu usuário. Ele usa também um chapéu de abas largas que esconde seus cabelos grisalhos e a face marcada pelo tempo e pela experiência. Escondem também seus olhos, azuis, como os de um Clint Eastwood em seu auge. Ele observa o apartamento no segundo andar, um moquifo, um esconderijo, uma casa. Levou muito tempo para que decidisse fazê-lo. Ele é um caçador, um assassino, cauteloso, frio, mas assim como o prédio a sua frente, sue tempo já passou, ele se apóia também agora, para que não caia em meio a esta multidão.

Ele já foi o assassino da meia noite, o algoz dos não mortos, é considerado um anátema pelos membros, alguém que se visto deve ser morto, porque se você não o matar, ele com toda certeza irá fazê-lo.

Estima-se que Ele já tenha matado cerca de cem membros, só na América do norte, gente importante, ele não distingue seitas ou clãs, idade ou sexo, para ele, o serviço que faz, é em nome de Deus, ele extermina as crianças de Lúcifer. Mas ao que parece, hoje, ele veio encontrar sua família mais uma vez. Uma ultima vez.

O velho tosse, um lenço cobre sua boca, o velho observa a cor âmbar do sangue que agora jas no pedaço de seda, ele não tem muito tempo. Ele então toma uma decisão, começa vagarosamente e decididamente a andar em direção ao outro lado da rua, e em direção ao velho prédio. Os carros passam zunindo por todos os lados, o homem sabe o que tem de fazer, assim como sempre soube antes, só que desta vez a tarefa vai ser um pouco diferente, ele veio dizer adeus.

O Velho porteiro se assusta com o som da porta de vidro se abrindo, poucas pessoas vêm a este prédio a estas horas, e geralmente os que vêm procuram algum tipo de negócio obscuro, por isso ele observa o senhor que entra pela porta. O homem se move como se estivesse prestes a cair morto ali mesmo. “Em que posso ajudar?”- pergunta o porteiro, o homem o fita por alguns segundos, então por fim responde, ”Eu procuro por uma pessoa, Alex Sanders, você o conhece?”.

Enquanto sobe pelas escadas o velho lembra-se de como era seu filho antes de tudo, uma criança, normal como todas as outras, curiosa como todas as outras. Muito tempo se passou desde o dia em que se separaram, o filho havia por duas vezes tentado contatar o pai, mas sem sucesso, o Sr. Smith, não admitia que o seu filho houvesse se tornado um deles, um da raça que ele jurou um dia exterminar. Mas o tempo é o melhor juiz, e hoje, Jonas Smith, bate a porte de Alex Sanders Smith.

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A noite chegou já faz duas horas, a letargia inicial que acomete todos os membros já havia a muito passado, agora o jovem assistia o noticiário sem prestar nenhuma atenção, pensando nos próximos passos da noite, provavelmente iria ir para o Succubus encontrar seus companheiros, e depois iriam “beber” todos juntos, ou iriam simplesmente vagar pela cidade e pelos clubes.

A campainha toca despertando seus sentidos, ele sabe que ninguém vem ao seu refugio, seus colegas não o fazem, cautelosamente ele vai à busca de sua arma, escondida embaixo do travesseiro. Pronto. Ele então se dirige a porta devagar. Ele já ouviu falar de alguns membros violentos que simplesmente invadem os refúgios, destroem quem estiver dentro, matam todos no prédio, para por fim botar ele abaixo.

- Quem é?

-Alex? Sou eu Alex, seu… han…pai.

Durante a noite toda os dois conversaram, o Sr Smith se desculpou por não te atendido ao filho durante todo este tempo, para ele era muito difícil aceitar que seu único filho havia se tornado aquela criatura, mas a aproximação da morte o fez ver que necessitava do filho, assim como todos, no fim há a necessidade de não deixar nada pra trás de que possamos nos arrepender.

A conversa começou tímida entre os dois, mas passada a vergonha inicial, os dois tinham muito a dizer um para o outro.

O filho contou o que acontece na cidade à noite, o que realmente era aquela cidade, contou sobre os companheiros que o aceitaram mesmo ele sendo um caitiff, contou sobre as noites quem que a única coisa que consegue fazer é ficar deitado esperando para ver se a morte vai vir na forma de um membro do sabá, um lobo, um caçador, contou sobre o medo constante, sobre o horror e sobre o sangue que já derramou.

O velho Sr. Smith pegou o filho pelas mãos, olhou nos olhos dele e lhe disse que no fim, tudo vai ficar bem, não importa quem ele seja, disse-lhe que queria ter estado ali antes, para que o filho não tivesse de passar por tudo aquilo sozinho. Contou-lhe sobre suas viagens pelo país, sobre todos os tipos que já havia encontrado, e por todos os lugares que já havia passado. Após anos, pai e filho novamente se viam.

- meu filho, eu espero que você um dia possa me perdoar, por tudo que eu já fiz, por ter renegado você todo este tempo. Eu vivi todos estes anos uma vida solitária, eu cacei todas essas coisas noite após noite, cidade após cidade, e nenhuma recompensa me foi trazida até os braços, sua mãe não foi trazida de volta vida, nem tampouco sua irmã, naquela noite em que elas morreram, eu estava bêbado, como sempre, talvez por isso que eu não consegui fazer nada, eles me procuraram porque eu era da policia naquela época, e havia matado um do grupo deles algumas noites antes, também foi por isso que me fizeram assistir enquanto estupravam e matavam as duas, sua mãe e sua irmã, eram a minha vida, assim como você, no dia em que elas morreram também eu morri, meu coração se tornou negro como a noite que acoberta estes malditos, e eu jurei caçá-los até o fim dos meus dias, todos os que eu encontrei tiveram uma morte terrível em minhas mãos, nada sobrou deles a não ser as cinzas, o meu ódio alimentou meu coração e me manteve por todos esses anos. Cada nome da cada vampiro que eu matei esta estampado em meu corpo, para me lembrar de cada noite que eu passei acordado, para exterminar aqueles que tiram as vidas das pessoas que eu amo. Então você se tornou um deles, e mais uma vez meu coração foi tomado pela angustia, e então eu matei mais e, mais, mas agora eu estou aqui, com você meu filho, as portas da morte já se abrem pra min., e eu perdi tanto tempo atrás dessas coisas, obcecado por matá-las, que eu perdi a oportunidade de criá-lo, de vê-lo crescer, por mais uma vez eu falhei, se eu estivesse aqui…

As lagrimas tomam o rosto do velho homem, mais do que nunca o sofrimento fica estampado em seu rosto, os olhos falham, assim como suas palavras

-Eu… eu sinto muito meu filho, eu espero que você possa me perdoar, e que Deus também o faça.

O velho estremece, começa a tossir, a mão cobre a sua boca, como a água do rio que passa pelas pedras, o sangue também encontra o seu caminho através dos dedos do velho, as gotas caem no chão, pintando de carmim o assoalho de madeira escura.

O jovem observa o velho lentamente perder o brilho nos olhos, os olhos que um dia foram ternos e calorosos agora só exibem angustia e pesar. Porque tem de ser assim ele pensa, porque não podíamos ser apenas uma família normal, jantar juntos, brigar por besteiras, porque o mundo tinha de ser tão imundo ao ponto de um filho perder o pai desta maneira. Súbito o jovem tem uma idéia, ele tem o poder de trazer o pai de volta a vida, e os dois então podem recomeçar longe daquele lugar imundo, em algum lugar tranqüilo, recuperar o tempo perdido, ser feliz mais uma vez, como antes.

Ele já ouviu falar de como se cria um membro, mas na prática parece ser muito mais difícil, ele se aproxima da jugular de seu velho pai, crava as presas em seu pescoço, o vitae jorra ainda quente para dentro de seu esôfago, ele sabe que não tem muito tempo para terminar o processo. Após tomar todo o sangue ele então morde seu próprio braço, e deixa o vitae escorrer para a boca de seu pai, por alguns segundos tudo fica em silêncio, pois ele sabe que deve deixar o pai beber até ficar consciente, se não o fizer a besta tomará conta do velho, assim como tomou conta dele quando foi criado.

Ele agora pode ver um futuro à frente, a família reunida finalmente, após todos estes anos, se apenas ele tivesse o poder de trazer de volta sua mão e irmã. Mas seu pai não se mexe, nem um centímetro, apesar de ter feito tudo de acordo com o que lhe foi ensinado o velho não se move, ele se debruça para ver se nota alguma mudança, é então que é pego de surpresa, a estaca atravessa o seu coração, a dor é lancinante, seus olhos não acreditam no que vê, o velho Sr. Smith se levanta, um sorriso no rosto, os olhos azuis mais uma vez com o fogo da vingança divina renovada. Ele observa Alex com uma expressão de desprezo. Onde antes havi amor, agora há apenas indiferença, ódio. O caçador começa a andar para longe do montro. Tempo não é mais um problema…

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Enquanto caminha para o outro lado da rua, ele observa enquanto as chamas começam a subir pelo segundo andar, observa quando a multidão nota as chamas e entra em pânico, quando os residentes fogem do local agora coberto por um cobertor de fogo, vê quando os primeiros caminhões de bombeiros chegam ao local, e começam a lutar contra o fogo, ele permanece no local durante mais algumas horas, pois sabe como essas criaturas são resistentes. Então calmamente Jonas Smith, “O Assassino Da Meia-Noite”, caminha em direção ao centro da cidade.

Nas semanas que se seguiram sua agenda estava cheia.

Livre reinterpretação do conto, “O Assassino da Meia-noite”.

20 de dezembro de 1999

20h32 min.

 

O vento cortante das ruas, e o frio dilacerante não interferem com a concentração da caçadora. Como um grande felino que espera ofuscado pela grama, ela aguarda ao lado da janela. Faz cinco minutos que ela subiu os degraus da escada de incêndio, que mesmo coberta de neve, não ofereceu nenhum obstáculo aos membros treinados da garota.

Não há fumaça de respiração, não há medo… a garota aguarda para verificar se o local oferece algum risco adicional.

Pela janela semi coberta de neve, ele enxerga o seu alvo. Victor Povich, um ex-pugilista, pedófilo e chauvinista, que após a morte da irmã e do cunhado, ficou com a guarda de sua filha, Anna. A garota jaz no chão, desacordada ao lado da cadeira onde Povich dorme tranquilamente, após ter abusado da garota e se embebedado.

O apartamento parece saído de um filme de terror adolescente. As paredes negras pela gordura da cozinha próxima, e o papel de parede caindo dão essa conotação ao ambiente. Parece que ninguém arruma o, local faz muito tempo, pois por todos os cantos empilham-se roupas e eletrodomésticos.

A frente de Povich a televisão mostra a retrospectiva do ano. Com os chavões clássicos e musicas já manjadas. O volume está alto, talvez por isso ninguém tenha ouvido quando a garota sorrateiramente abriu a janela, e pôs os pés dentro do apartamento.

Se alguém a visse agora, pensaria estar sendo atacada por alguma mulher saída de algum filme de ninjas. A garota usa um traje ninja, negro, com muitos bolsos para guardar as ferramentas que acha necessárias a missão. E seu rosto é protegido por uma máscara, que deixa a vista apenas os olhos. Azuis. Belos e mortais.

Ela observa por alguns instantes em busca de algum movimento suspeito… nada. Ela então se move até a criança e checa o seu pulso. Viva, mas de alguma forma em sono profundo, provavelmente sedada. Ela pega Anna no colo, e anda até o banheiro próximo, a põe deitada dentro do Box do chuveiro, e sai trancando a porta.

Ouve então um barulho vindo da sala. Imediatamente ela avança, e encontra Povich de pé, tentando se equilibrar. O olhar do homem é de ódio, em sua mão uma garrafa firmemente segura.

- O quê você tá fazendo em minha casa, sua vadi…

Suas palavras são interrompidas quando o vulto negro assoma sobre ele. A garota ágil desfere vários golpes pelo corpo todo do homem, que cambaleia e solta à garrafa. Povich se apóia no sofá e avança sobre a garota, com os punhos serrados, e desfere alguns golpes, facilmente desviados, por uma agilidade quase felina. Seus olhos saltam quando sente uma dor lancinante no estomago, e nota o brilho carmim que desce por seu corpo.

A garrafa.

Ele observa o vidro verde ser tomado pelo sangue que sai de sua barriga. Ele tenta arrancar a garrafa que está cravada em seu estomago, mas ela fora empurrada com muita força para dentro. Uma força sobre humana. Seus olhos com o ultimo brilho de vida parecem perguntar como isso foi possível. Povich, campeão mundial dos pesos pesados, em nome da mãe Rússia, derrotado de forma rápida e mortal, por alguém que não parece ter saído da adolescência ainda.

Seu corpo cai no chão. A garota se ajoelha ao seu lado. Observando o sangue que começa a sujar o carpete. Parece que há uma luta dentro da mente da garota. Para ver o quão terrível vão ser seus próximos passos. Ela então se levanta. Por trás da mascara há um sorriso em seu rosto. Ela mais uma vez vai fazer justiça. Justiça contra aqueles que por meios normais não conseguem ser pegos. Justiça contra os que não têm mais volta, que já se perderam em meio a sua monstruosidade. Ela sabe que também é um monstro, mas somente alguém assim poderia fazer o seu trabalho. Um trabalho sem glórias ou louros. Apenas mais sangue nas mãos no fim do dia.

De um dos bolsos da calça, ela tira uma faca de caça. Observa a lamina que brilha, refletindo seu rosto coberto. Em seguida ela tira a roupa, pois sabe que o que vem a seguir é um trabalho sujo e demorado. Ela então se ajoelha e começa a serrar o corpo ainda semi-vivo de Povich, o Urso Russo…