Os homens que adentraram aquela velha casa de uma secular família do interior do condado de New Haven jamais poderiam imaginar o choque e aversão sobre-humana que encontrariam ali.

Sabiam que estavam atrás de um senhor outrora conhecido por seus estudos teológicos para a universidade local e pelas grandes doações fornecidas por sua família a famílias locais desprovidas de sustento ou em situações menos auspiciosas, mas que agora era temidamente associado a diversos boatos sobre tortura e assassinato ocorridos por todo o território americano.

Havia ele torturado e matado ao menos três pessoas no ultimo ano, e isso fora apenas o que se conseguiu confirmar ao serem encontradas partes de corpos medonhamente disformes. Um homem em um prédio em construção próximo a 5th Avenue, que fora encontrado semi mutilado, sem pés e sem mãos, parcialmente coberto pelo teto do local que de alguma forma havia cedido. Uma atriz encontrada sem a face em um teatro local após uma apresentação. E um homem encontrado semi devorado por ratos em um restaurante de uma famosa franquia.

As investigações se seguiram durante vários meses. Até que no dia 31 de outubro a policia local decidiu invadir o local, após alguns vizinhos da pequena mansão terem reclamado de alguns sons estranhos vindos de dentro de propriedade que estava anteriormente entregue apenas as baratas.

A polícia chegou por volta das 10 horas da noite em quatro viaturas policiais com agentes fortemente armados e protegidos. E desde o momento em que puseram os pés para fora das viaturas naquela estreita rua arborizada, sentiram o estalar das arvores e os sons do vento como um mal augúrio que pairava sobre aquela propriedade.

Era como se o os sons da noite fossem atribuídos de um ritmo, um som gutural apenas lembrado em histórias antigas passadas de geração em geração, que agora estavam tão desaparecidas, ou até mesmo escondidas quanto seus próprios criadores.

Todas as luzes do local estavam desligadas com exceção de uma bruxuleante luz violeta que vinha de uma das janelas do segundo andar, onde dizem, era o quarto de dormir dos pais do suspeito. Onde teriam eles sucumbido à loucura e se matado.

Conforme avançavam para dentro da casa, cada vez mais o espírito dos homens parecia ser consumido pelo ambiente e pela escuridão que permeava o local. E, conforme a casa era vasculhada, percebiam cada vez mais uma presença latente e invisível que parecia vigiar a todos que ali estavam a macular a residência.

As atenções então se voltaram para os fundos da casa, onde parecia haver um pequeno labirinto arbóreo tão antigo quanto à própria propriedade, mas que agora jazia coberto por um manto do que parecia ser uma vegetação negra e visguenta saída de um pesadelo mortífero de alguma cidade onírica dos abismos mais terríveis.

Um dos lados do labirinto havia ruído, revelando ele algum tipo de luz que vinha de seu interior, e algum tipo de canto indescritível que parecia sair da boca de um animal em transe orgástico.

O destacamento policial avançava com cautela por entre as proteções do labirinto e em meio à cobertura que a escuridão lhes proporcionava em direção à abertura lateral. E conforme os homens continuavam a percepção do que era realmente feita a cobertura do labirinto fez com que muitos recuassem, alguns caíssem no mais profundo e angustiante choro, e alguns outros entrassem no mais profundo choque, seguido de um pânico que os fez desfalecer em meio aos arbustos.

Por entre a formação arbórea e visguenta, sobre as cabeças dos oficias encontrava-se uma manta rubra indefinível de órgãos, cabelos, e pele seca humana de muitos dias, talvez até mesmo anos de existência, e sabe-se lá, morte.

O avanço da tropa continuou até a beirada do labirinto ruído, onde puderam observar - para seu horror – que os gritos animais vinham do homem que se auto intitulava o Devorador, e que dançava e cantava freneticamente em alguma língua indistinguível, alterando seus movimentos entre dois círculos suspensos no ar. O mais interior era um de fogo, onde em seu centro se encontrava uma grande e polida pedra de mármore branca banhada em algum liquido pardo seco, e o mais exterior era formado de partes humanas, e corpos das vitimas, sete delas para ser mais exato.

O choque fez com que os policiais ficassem paralisados observando aquele homem que mais parecia um animal entre seus espólios de guerra por assim dizer. Mas o choque durou pouco, e o dever policial foi mais forte. Eles então avançaram para cima do assassino, e deram-lhe voz de prisão.

O homem ensandecido uivou a vista dos homens e avançou em sua direção empunhando um punhal de aparência grotesca. Avisos foram dados, assim como gritos, e balas zuniram pela noite.

O animal acuado estripou dois policias como se suas peles fossem de manteiga antes que os projéteis, como relâmpagos o fizessem vergar para trás e cair de costas no chão.

Os homens então entraram naquele círculo macabro e ouviram os últimos balbucios audíveis da temível criatura e sua risada gorgolejante.

- …ack… em sua morada em R’yleh o morto Cthulhu espera sonhando…e eu seu enviado, irei devorar a parte do homem que cabe a meu mestre, pois assim como em toda a Terra, há o Sol e a Sombra, há também no homem uma parte de meu deus ancestral, e de seus pecados eu sou o portador imor…

Uma bala no peito fez com que o homem parasse seu discurso, mas outras três lhe foram necessárias antes que esse parasse de rir.

E até hoje, daqueles que tiveram o infortúnio de adentrar aquele domínio maldito, há os que dizem terem ouvido o som de passos pesados vindos de dentro daquele labirinto, e o som gorgolejante de uma respiração profunda.

O corpo do homem fora levado para o IML local, mas jamais fora verificado, pois no incêndio que derrubou metade do bairro, o prédio também fora vitimado.

Hoje, somente eu resto dos sobreviventes daquela expedição. Algumas semanas atrás o agente Jenkins fora encontrado pendurado pelo pescoço no lustre de um motel barato.

Este relato, assim como o relato de todas as outras mortes que me foram entregues posteriormente à caçada estarão em minha escrivaninha pessoal, assim como meu testamento.

Barry Allen Richards

Tenente do 3° distrito de New Haven

Sentiu um corpo trombar com o seu enquanto andava desnorteadamente entre o fluxo de pessoas da Rua Baker. Não conseguia encontra nenhum ponto de referência que pudesse lhe localizar ali, naquele caos. A rua estava lotada por todo o tipo de pessoa. Desde turistas em busca das pirâmides, passando pelos vendedores de quinquilharias que a todo o momento queriam vender alguma inutilidade que os estrangeiros achariam linda para poder se exibir diante de seus amigos burgueses, chegando até as dezenas de senhoras que vendem petiscos de todos os tipos, instaladas no meio das calçadas ou em uma das centenas de tendas que havia pela rua. O mercado árabe. Literalmente uma Babilônia aglomerada em uma única rua.

Estava desnorteada, procurando um local onde pudesse entrar para pensar por alguns segundos. Mas não sabia o que fazer. Tinha certeza de tê-lo visto, ali, a alguns metros dela, a observando atentamente, os olhos verdes em chamas. A paixão cega.

Havia saído de seu país por sua causa. Por causa da carta. Sabia o que acontecia com quem a recebesse. O triste fim que as aguardava, um fim sem nenhum tipo de pressa. Um encontro marcado. Ele era um Devorador, como ele mesmo dissera a ela em algumas das sessões. Lembrava-se das palavras, da expressão em seu rosto. Da paixão. E de como tudo aquilo ficava ecoando em sua cabeça a cada momento.

Lembrava-se de como aquela expressão serena de homem austero se transformou rapidamente em um rosto animalesco, disforme, brutal, e de como quase não escapou com vida do consultório naquela tarde.

Mas porque ela?

Não havia nada que pudesse tê-la feito entrar em sua lista, ou seja lá o que for que ele tinha em sua cabeça. Distúrbio de personalidade, lembrou ela. Foi o que disse aos médicos após o período de avaliação. Lembrou-se de ter apelado para que tomassem cuidados, para que não o mantivessem junto de outras pessoas, para que lhe tratassem como deveria ser tratado. Um homem doente.

Riram da cara dela, os policiais e seus colegas. Era apenas mais um marginal. Mais um dos milhares que havia espalhados pelas ruas, um dos desafortunados. Ela sabia que não estava errada, nunca. Não ela. Eles estavam errados, quem eram aqueles que ousavam discordar de seu laudo. Ela que era reconhecida em tantos lugares. Logo ela.

Olhou por cima do ombro e notou o chapéu, em meio à multidão, no espaço entre uma pessoa e outra, e correu, esbarrando nas pessoas, derrubando quem estivesse em seu caminho. Caiu para dentro de uma tenda, onde um homem conversava com uma jovem garota. Notou o olhar enfurecido do homem e tentou uma desculpa qualquer na língua nativa, enquanto se esgueirava por debaixo do pano que compunha os fundos da tenda.

Olhou a frente e notou as escadarias de um hotel barato e imediatamente correu para seu interior. Sentia-se um pouco tonta agora. A adrenalina corria por seu corpo. Suas mãos tremiam, sua boca estava seca, seus pensamentos velozes.

Subiu rapidamente pelas escadas de madeira, ouvindo o barulho de seus sapatos ecoando por todo o local. Tirou-os e segurou-os com as mãos. Corria ainda, mas tendo o cuidado de fazer menos barulho possível.

Terceiro andar.

Ela se escorou no corrimão para descansar por alguns segundos. Sua cabeça rodava vertiginosamente e sua visão estava um pouco turva. Não tinha almoçado e provavelmente sua pressão estava baixa. Precisava respirar.

Porque ela? Talvez por ter recusado ajudá-lo em sua caçada? Ou por ter dado seu endereço ao FBI?

Ouviu o som de sapatos subindo calmamente as escadarias. Olhou para baixo, para tentar ver alguma coisa, mas devido à luz escassa e bruxuleante somente notou o volume negro que subia as escadas. Mas sentia que era ele. Só podia ser ele. Desde o começo das sessões ela tinha a estranha sensação de ter sido escolhida por ele. Ela dentre todos. Mas não era difícil notar-se porque era ela…

Correu mais uma vez, em direção a janela aberta que dava diretamente para o prédio ao lado. Dava graças a deus pelos arquitetos de terceiro mundo fazerem prédios tão próximos. Soltou os sapatos e saltou para a varanda próxima.

Sentiu a vertigem atingi-la em cheio enquanto ainda estava no ar entre os dois prédios. Sentiu suas mãos falharem ao segurar o corrimão da varanda e seus olhos escurecerem no momento em que sua cabeça atingiu o chão já dentro do prédio ao lado.

Sentiu o liquido quente escorrendo-lhe pelos cabelos e viu a mancha carmesim que estava espalhada pelas lajotas brancas do banheiro.

Abriu a porta e estava agora em um corredor. Uma residência parcamente mobiliada. Apenas o necessário, pensou ela, ou apenas o que se conseguiu obter naquele fim de mundo.

Andou devagar enquanto andava pelo corredor. Seguindo em direção à escada que levava para o andar de baixo, prestando atenção para qualquer ruído.

Teria ele a incluído na lista por ela ser rica? Queria ele seu dinheiro? Não. Esse tipo de louco não está atrás disso. Lembrou-se de como ele falou certa vez sobre como ela tinha obtido suas posses e de como deveria sentir orgulho de tudo que havia conquistado com os anos de estudos e serviços prestados, os prêmios e o reconhecimento dentro do mercado.

De certo, em sua cabeça, ele pensava que ela não merecia esse tipo de coisa, esse tipo de vida. Deveria ter em algum lugar escondido em sua mente algum tipo de comunista revolucionário ao extremo.

Seus joelhos tocaram o chão, ela sentiu mais uma vez as mãos falharem. Estava fraca, deveria ser por causa da exaustão e da falta de sustento. Ouviu um barulho vindo do andar de cima e então acordou.

Tentou se apoiar em um criado mudo que estava próximo, mas só conseguiu fazer com que ele virasse junto dela quando caiu no chão. O barulho deve tê-lo alertado, pensou ela. E então cambaleando ela se dirigiu para uma porta próxima. Podia ouvir seus passos descendo as escadas, em segundos estaria aqui. Tinha algo prendendo a porta. Ouviu do outro lado alguém falando alguma coisa, mas não conseguia entender. Gritou por socorro. Ele agora deveria estar nos últimos degraus, já podia senti-lo olhando para ela. E foi então que viu um clarão.

Notou os pedaços de madeira que subiam acima de sua cabeça. Os buracos feitos na porta, os olhos aterrorizados da mulher do outro lado. E os olhos furiosos do homem com uma espingarda.

Ele deu mais um tiro. E ele caiu no chão a algum metros da porta.

Ele devia ter fugido pensou ela, quando ouviu o grito da mulher. Deve ter sido isso. Mas agora ela estava protegida, ele não podia mais pegá-la. Não. Agora tudo ia ficar bem.

Tudo ia ficar bem.

The first time is the most difficult.

Every time is the most difficult.

Sin is small black larvae,
squirming among the vegetables,
maybe in the mashed potatoes.
perhaps among the green beans.

It is slimy, dark and fast.

It is sightless, but still searching,
even at the end, for a host.

It can be trapped with a fork,
captured with a spoon.
It should never be sliced with a knife.

Sin has no taste.
The sin you eat for others,
for those recently deceased,
it has no taste.
It does, however, have texture and movement.

After you have eaten,
do not think upon what you have done;
Don’t fear being alone.

Remember no one is without sin,
no one, not even you.

Os gritos ecoam pelos corredores escuros e abandonados. O som de água gotejante, devido a infiltrações que inundam o local, com um aspecto de caverna. O limo e a sujeira cobrem todo o lugar, um antigo abrigo antiaéreo datado da segunda guerra mundial, tão esquecido quanto à própria guerra em si. O local parece um labirinto de túneis austeros de concreto com mais de 15 cm de largura. Portas blindadas e isolamento acústico. Ninguém do lado de fora ouve o que realmente acontece por ali.

O homem esta sentado em uma cadeira de metal. Sua postura lembra a de um oficial do exercito. Empertigado, ereto, silencioso. Em sua mão direita ele tem um alicate, de onde algumas gotas de sangue caem em direção ao chão, já bastante imundo, e marcado por mais alguma “reuniões” anteriores. Em sua mão esquerda ele tem uma pequena marreta com ponta de metal.

A sua frente, uma mesa também de metal, exibe alguns instrumentos interessantes. Uma Mauser C-96, 9 mm, algumas peças de xadrez, dispostas sobre um grande tabuleiro de marfim branco e ébano, e uma pequena caixa de metal, cheia de gelo, onde jazem dois dedos recém amputados.

A moça continua a gritar de dor enquanto sente o sangue saindo de mais um dos seus dedos amputados. Dessa vez foi o anelar da mão esquerda. Seus olhos estão cobertos de lágrimas e sua cabeça inundada de pensamentos acerca do motivo de tudo aquilo. Só se lembrava de ter estado em uma festa à fantasia e ter bebido alguma coisa com um jovem rapaz. E depois disso, só a escuridão, até ser acordada por ter seu dedo arrancado com um alicate. Mas não antes de ter o mesmo esmagado pela marreta nas mãos de seu captor.

- Eu sou rica – disse ela, a voz quase em falsete, se esvaindo, quase um esforço titânico a cada palavra que ela cuspia da boca – Meus pais podem pagar tudo pra você, só me deixe ir. Por favor. Eles pagam qualquer quantia de resgate, eu garanto.

- Não.

- Por que!? Porque esta fazendo isso comigo!? O que você quer!?

- Primeiro, eu quero terminar a nossa partida.

Ela olhava atônita para ele. A sua frente estava um louco, um ensandecido homem que a havia escolhido aleatoriamente para torturar e depois matar. Ela chorava copiosamente e tremia, muito, tendo quase convulsões. E se tudo continuasse como estava, em breve ela entraria em choque.

- Sua vez – Disse ele após movimentar o cavalo para a posição D6 – Xeque.

Ela não podia acreditar, ele realmente queria que ela continuasse jogando naquelas condições. Ela começou a se lembra então do filho de dois anos, e dos pais, de quem agora mais uma vez era inquilina. Voltaria ela a abraçá-los mais uma vez, a sentir o perfume das rosas no jardim, a brincar com sua cria?

O rosto impassível do outro lado da mesa somente dava a impressão de que era capaz de qualquer coisa. E ao perceber a inércia dela, a mão com o alicate lentamente começou a se movimentar e direção ao braço esquerdo dela, mais precisamente a sua mão, que estava estendida sobre a mesa, amarrada e ainda sangrando. Ela soube o que ele ia fazer.

- Não, não, pera, pera – E pegou então o bispo branco e movendo-o para a posição do cavalo inimigo, pôde garantir um pouco mais de tempo a si mesma.

Rapidamente as mãos do homem voltaram à posição inicial e ele largou a marreta no chão, pensando no próximo movimento. A moça tremia a sua frente, suava frio, e o olhava com pavor tremendo.

- Pessoas como você garota, sempre pessoas como você que me dão o trabalho. Sempre me fazendo fazer esse tipo de coisa.

- Do que você está falando? Eu não sei do que você esta falando, cara!!!

- Ah, mas você sabe sim. Seu ex-marido. Você o traiu com quem mesmo? Ah com o melhor amigo del,e não é mesmo?

- Você então tá a serviço do Alex? Mas…

- Sua vez – e colocou então a rainha em posição, bem a frente do rei adversário, mas do outro lado do tabuleiro – Xeque.

Ela estava parada atônita. Mas para quem ele trabalhava? Não conhecia ninguém que pudesse ter algo contra ela. Pelo menos, que ainda estivesse vivo. Tremia mais do que nunca, mas o choro havia cessado. Pelo menos agora ela sabia que ele trabalhava para alguém.

- Vamos, não me faça obrigá-la a jogar. Você, mais uma vez, não vai gostar nada.

Ela então pôs a torre branca bloqueando o caminho da rainha negra. E7.

- E depois do caso com o Arthur, quem foi? Ou melhor, quais foram os seguintes? Eu contei sete, quantos você pegou de verdade? Diga-me, eu realmente fiquei curioso.

Ele se apoiou nos cotovelos, e ficou a olhar para ela, como se realmente esperasse uma explicação de sua parte. Mas como ele sabia dessas coisas? Talvez um deles tenha ficado com ciúmes, e voltou querendo vingança. Mas quem? E a quanto tempo ele já estava a observá-la.

- Xeque-mate – Ela ouviu as palavras saindo da boca de seu vilão, com um tom de humor negro muito característico, quase como se ele estivesse gostando dessa situação, assim como ela gostava de jogar golfe, por exemplo.

Sua mão estava sangrando ainda, e sua visão começava a ficar turva. A dor nem mais importava tanto, já havia diminuído um pouco, bastava não mexer muito. Mas logo, com a falta de sangue, ele iria desmaiar se não pior.

– Você perdeu garota – E ele disse isso como se ela realmente tivesse perdido muito mais do que uma simples partida. Ela sabia o que isso significava, mas não queria que tudo acabasse ali mesmo, não agora. Havia recém comprado uma casa aos pés do letreiro de Hollywood, e iria finalmente sair da casa dos pais.

- Seu merda, o que você quer de mim afinal!!??? Pra quem você trabalha, caralho?!

Ele andava pela sala, parecia estar à procura de algo, algo que parecia não estar lá. Procurava na escuridão, em meio a prateleiras lotadas de coisas invisíveis aos olhos cansados da moça. Jogava coisas no chão, mas parecia que realmente o que procurava não estava ali.

- Fique aqui – Disse ele com um sorriso no rosto, e então saiu pela porta para a escuridão do corredor. Ela somente ouvia seus passos se afastando. Então ficou tudo um silencio completo, exceto pelo pinga-pinga das infiltrações. Seus pensamentos já estavam totalmente desfocados, assim como seus olhos, e a mão voltava a doer, assim como sua cabeça. Uma dor lancinante e terrível. Olhou para a caixa a frente, seus dois dedos arrancados jaziam ainda no gelo, talvez pudessem ser colocados de volta no lugar. Era só pagar um bom cirurgião, que tudo daria certo. Só tinha que acertar com esse homem uma maneira de libertá-la. Só isso. Ela o ouviu entrar novamente no recinto, em suas mãos uma serra elétrica, do tipo que os marceneiros usam para cortar pequenas toras de madeira, e seu coração quase parou ao olhar para aquilo. A lamina estava negra, o que indicava que ele já a havia usado antes.

- Espera, eu posso lhe dar qualquer coisa, qualquer uma. Tudo, eu te dou. Eu transo com você, o quanto você quiser, te dou dinheiro, carros, tudo. Mas me deixa sair daqui. Eu não sei pra quem você trabalha, e nem quero saber, eu só quero sobreviver. Por favor – Suas palavras engasgavam com o choro que mais uma vez voltava, assim como a dor, ainda mais forte. Ela gritava xingava, desesperada, enquanto o homem estava ainda parado a sua frente. Agora não mais com uma expressão tão séria, mas entrecortada por um breve sorriso.

– Eu quero ver meu filho, meu pais, todo mundo, por favor, por favor!!!

- Garota, você viveu uma vida de pecados, de luxúria. É por isso que você vai morrer. Se te deixa mais tranqüila, eu não vou matar mais ninguém da sua família no momento. Eles ainda não merecem, mas você sim. Você fez de tudo para destruir as vidas das pessoas ao seu redor, e isso eu não posso tolerar. Você é o tipo de animal, que não pode viver em sociedade, e por isso foi caçada, e agora retirada da convivência do resto da população. Por isso que agora eu vou fazer você gritar tanto, e tão alto, que sue pulmões vão explodir. Vou fazer você sentir tanta dor, e você vai assistir a tudo de camarote, enquanto eu corto pedaço a pedaço do seu corpo, até que por fim sobre só o suficiente para que você ainda esteja consciente o bastante para que sinta os ratos vindo devorá-la. E não se preocupe com o sangue, nós temos o bastante por sorte, eu tenho feito um estoque.

Ela não podia acreditar tudo que ela havia levado anos para ter. Agora seria tudo perdido para ela, tudo, em apenas alguns segundos. Seu rosto estava pálido ainda, as palavras não saiam direito de sua boca, enquanto tentava protestar contra seu algoz. E quando ouviu o barulho da serra sendo ligada, seu pavor aumentou mais ainda. E conforme ele começou a se aproximar, e também a serra, ela começou a balbuciar palavras ininteligíveis, suas últimas palavras, emboladas com lágrimas e sangue…